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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

I - A tempestade

 Justiniano levanta-se assustado com o estrondo ensurdecedor que se fez sentir. A chuva, o vento e a continuada trovoada precipitam os tremores na Joaninha, a filha da criada mais antiga da casa, levando-a a correr de um lado para o outro como um pássaro atordoado à procura de abrigo. A sala fica de repente iluminada e Justiniano tenta acalmar Joaninha com as suas palavras sábias na arte do conhecimento das precipitações da natureza. A sua passagem pelo curso de Literaturas Clássicas em Coimbra tornava a sua elocução uma lei inquestionável.

No outro lado da casa, bem longe do centro de todas as atenções, a mãe de Joaninha dava-se ao desfrute com o Pároco da aldeia, relação que já se prolongava há anos, mas, a todo o custo, o plano que engendraram, em colocar D. Prazeres como uma senhora extremamente escrupulosa, continuava a ser muito esclarecedor e ninguém ousava questionar as visitas do Pároco repetidas vezes por semana à Casa Grande, mesmo que essas visitas se dessem durante a noite.

O Pároco tinha assumido, secretamente, com D. Prazeres a educação de Joaninha e preparava um pé-de-meia para que ela fosse estudar para Coimbra onde tinha frequentado o ensino superior o recém-licenciado Justiniano. O Senhor Conde, grande amigo do Abade, conhecia toda a estratégia e prometera ser cúmplice desta situação, disponibilizando-se em dar o seu nome como benfeitor nas despesas e até alguma ajuda se fosse necessário.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

E assim começa uma nova história...


... mais uma! Ou talvez a história de quem quer viver intensamente cada momento como se fosse único. Devia ser assim com os amantes. Mas não é. Já não é mais ou ainda pode ser? Gosto, não gosto, mas gosto... 
A conversa foi mais ou menos esta. Começou por ali... a divagar mais uma vez sobre o relacionamento humano e a facilidade com que nos deixamos influenciar por tudo o que é aparente e a falta de tempo para nos aturarmos. Porquê?
Diziam que o stress era a razão. As pessoas não param mais e quando param estão a atualizar as suas páginas nas redes sociais.
Porra. Haja paciência... sempre a mesma conversa? Mas são as redes sociais as culpadas ou somos nós que não sabemos apreciar mais as coisas que nos fazem bem?
A mente precisa estar ocupada. Não tenho dúvida disso. A maioria das pessoas lida muito mal com o tempo livre. Farta-se depressa demais do que está a fazer e passa imediatamente para outro registo sem desfrutar e tirar o máximo proveito do que lhes é oferecido. 
Passear à beira mar é sensacional, é um facto. Também é verdade que nem todos podemos passear todos os dias à beira mar, mas com alguma organização nos nossos horários até conseguimos passear nos sítios mais recônditos da natureza. E, sabem que mais, é lá que os poetas ganham a inspiração para contar as mais belas histórias de amor. Foi lá, bem no meio do rio que ele a viu pela primeira vez...
A história dos dois não foi nada fácil. Estão a imaginar aqueles casais que os pais fazem de tudo para os separar? Era bem pior, a sociedade estava toda contra...
Qualquer novela ditava que os dois ficavam juntos... mas a realidade da vida é um bocadinho mais complexa do que as histórias das novelas em que a vilã tem um fim trágico e os heróis são premiados. O problema é que tantas vezes o herói só consegue ver quando fica cego de vez, tal como Édipo...
Lá, naquele rio, ali perto do alpendre, ele viu-a pela primeira vez... porque foi passear na natureza. Porque foi vaguear enquanto se preparava para um exame da faculdade e tinha de descansar um bocadinho...
As pessoas deviam ser mais assim. Sair à procura de momentos de lazer. Sem levar o telemóvel... Passear apenas pelo meio das ervas como faziam em criança...
As pessoas crescem e ficam parvas, não ficam? Por hoje chega... depois conto a história toda... aos poucos.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Na Cidade

A intelectualidade surgia em cada novo membro que se alistava na Irmandade. Toda a nata burguesa se deflagrava ali como uns verdadeiros filhos da puta que dominavam tudo e todos. A Comunicação Social andava atrás deles como sanguessugas, tentando obter a melhor foto para a capa e extorquir-lhes a frase mais sonante para manchete.
                Era sábado de manhã, o tempo estava meio escuro, as donas de casa corriam nas lides domésticas depois de uma semana de trabalho. Conde e Justiniano dirigem-se ao Clube no centro da cidade. Haviam combinado um encontro com o Presidente da Câmara para engendrar a melhor maneira de contratar o recém-licenciado. O Clube era coisa da elite. Só entrava lá quem fosse sócio. Ninguém iria desconfiar. Pelo menos os comunistas que estavam por todo o lado.
                Comunistas eram todos os que não se enquadravam no regime. (…)
in A Sombra da Casa Grande

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Verdades Inquestionáveis"

«Tudo é questionável, mesmo o inquestionável


A teorização sobre as coisas não é nova. Nunca acabou e nem vai acabar. Podemos acreditar mais ou menos em certas teorias, mas independentemente do que se possa fazer ao homem, no que respeita à sua liberdade, de uma coisa tenho a firme certeza: pode-se tolher o pensamento, levar o homem a pensar numa só direção, seja pelo medo ao pecado ou a outra coisa qualquer, mas nunca se poderá engaiolar esse mesmo pensamento. 
Verdades Inquestionáveis não é mais do que 'work in progress'. Uma viagem ao imaginário. Uma fantasia num mundo outro. Uma brincadeira de quem gosta de jogar com as palavras. 
"A Sombra da Casa Grande" é o melhor dos títulos, porque a ação acontece numa Casa Grande, na Sombra ou... a Sombra...
Tudo o que daí vier, não é imitação da realidade, quanto muito aproximação física aos locais, já as personagens nunca as vi senão na minha própria ficção. Este romance já não é mais meu... ele vive em cada um que se aventurar a entrar aqui. Mas, atenção, a viagem não tem regresso!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Não posso contar nas páginas dos jornais

     Esta é a história que não posso contar nas páginas dos jornais. O enredo não é nada de novo e muito menos traz qualquer novidade ao mundo literário. Contá-lo? Foi a pergunta mais sombria que se me colocou nos últimos meses. Mas ela merece que a conte. A imagem não me sai da cabeça. Tenho saudades. Confesso que jamais pensei que isso iria sentir-se mas a sua ausência perturba-me imenso.
     O cheiro a mar. Vê-la a correr de braços abertos pelo areal e a fugir às ondas, qual gaivota feliz.
     A chuva era imensa naquela noite. A trovoada apareceu pela madrugada e quando falhava a luz, só as velas ajudavam a afugentar as silhuetas que entravam quarto adentro cada vez que o trovão entrava mesmo sem bater. Levantei-me num ápice. As velas costumavam estar na gaveta da cozinha. Entre o ranger da porta e os clarões da trovoada, a minha sombra mais parecia um fantasma naquela casa tão grande.
    Nem as minhas viagens a Coimbra demoravam tanto como atravessar o corredor até à cozinha. Um ruído pouco habitual chamou-me a atenção. Não era medo. Era a sugestão de não saber o que esperar. Mais um clarão e o Tobias é transformado num tigre gigante.
     - Pobre gato, também não consegues dormir com este temporal?
   Uma festinha e lá foi ele para o caixote de cartão ali debaixo de um cadeirão ao lado do quarto de Joaninha.   Estava linda! Cresceu mesmo. Nem na faculdade via mulheres tão lindas. Se correr bem para o próximo ano também vai para lá.

      - Alto lá! Espera! Vou-me esconder aqui atrás do cadeirão. A mãe de Joaninha vem da cozinha com o…

folhetim #1