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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

«Quem não alinha com a escumalha está fodido.»

Os acessos eram difíceis. Quem não alinha com a escumalha está fodido. Não há palavras mais suaves para descrever. É a voz do povo! Não, pensando melhor, é só o desabafo de alguém do povo, porque o povo é cobarde e muda de posição conforme as trombetas do poder.
Voltava ali vezes sem conta. As saias envergonhadas das senhoras baronesas, verificadas ao milímetro antes de saírem à rua, espelhavam bem a sumptuosidade de cada gesto calculado.
A timidez de Joaninha era tão natural como a sua beleza. Conquistar o seu coração não parecia difícil, avaliando pelas conversas melodiosas travadas pelo olhar. Agradar sua mãe poderia ser tarefa mais complicada. Ser filho do Presidente é diferente de ter o apelido do mordomo.
Jornal de baixo do braço dá sempre um ar mais intelectual. Encostado às grades e folheá-lo devagar enquanto a festa não começava, permitia sempre estar mais perto dela. Do outro lado da rua era o café da oposição. São sempre os mesmos. Já me tinha apercebido de algumas movimentações estranhas, pelos vistos vão criar um jornal novo. É o melhor que podem fazer, em vez de estarem sempre a dizer mal do semanário local. Assim colocam lá quem querem e lançam as próprias notícias. Mesmo dizendo que são isentos. Até aqueles que estão sempre a escrever essa treta nos editoriais… tão isentos que eles são… nem sei como ainda pagam impostos.
O sarau está demorado. O senhor deputado ainda não chegou de Lisboa. A vida tem destas coisas. Esperar por um deputado. Se fosse ao menos o Morgado de Fafe ainda valia a pena esperar. Precisamos é de comédia. Isto anda muito tenso. Anda tudo à procura da fotografia. O problema é que alguns julgam que os jornalistas quando saem à rua é para os ver… tão anjinhos…

«Felizes os pobres… porque deles é o reino dos céus». Deve ser deve. Se comesses água de feijão todos os dias... tu é que vias o que é ser feliz. Palhaço.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A festa dos corpos

    ... foram as palavras mais bonitas que alguma vez ouvi. Aquela certeza, estampada naqueles olhos castanhos brilhantes, fazia de mim o homem mais feliz do mundo.
     O café do Avenida era o ponto de encontro. Claro, o café era o pretexto. Ninguém queria beber nada. Era mais uma desculpa inocente para dois corpos que se querem amar, mesmo que um deles o negue insistentemente.
     Os dois amantes percorriam as calçadas apressadas. Desejosos que nenhum conhecido atravessasse o caminho. A temperatura dos corpos abrasados... Os olhares cruzados entre sorrisinhos tímidos e comprometedores anunciavam a festa dos corpos entrelaçando-se nas mais deliciosas cumplicidades da vida.
     A janela pendular marcava o tempo entre a razão e o imaginário.
  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Vamos voar... Não olhes para trás, vamos!

The Power… the power… the power… o poder insofismável de uma noite completamente hilariante. Revejo uma vida que deixei passar e quase me esquecia de a viver. Tão bom… tão agradável… Sinto que o mundo não é apenas o terrorismo noticioso, é muito mais que isso, é muito mais feliz a vida a olhar a cidade, onde as gentes cantam e festejam… correm para os autocarros, apanham o metro…
Quero voar, quero sentir o perfume da vida! Quero atirar-me num mundo infindável… Sonho… sinto a brisa… regresso ao abraço da minha família… meus amigos… é dia de festa… tudo isto para a minha chegada…
Começo a ter mais força mais vida, afinal nada era real… aquilo que vivi foi um sonho… agora tenho poder… tenho força… sonho com toda a garra e eis que aqui estou… sou eu… sou… sou… sou eu que quero viver livre… sem preconceitos… sem rumores… sem me importar no que possam dizer… apenas quero que todos sintam o mesmo… que cada um faça o que quer. Hoje tenho o poder de ser o que quero e os outros que façam o que querem… vou voar… vou voar… vou voar… tenho poder… tenho poder… tenho poder…
O mundo sonhava um dia ter paz… eu tenho paz… eu faço o que quero… vou voar… já não estou sozinho… todos de mãos dadas. Sonho… sonho… não quero acordar, não quero acordar… sonho… tão bom… Até que enfim, volto a ter o teu sorriso. Valeu a pena esperar, valeu a pena partir nesse mundo… conhecer as gentes de culturas tão diferentes… hoje aqui estás tão minha, tão linda, Amo-te!
Muitas vezes pensei que nunca te veria mais, que a nossa história tinha acabado e que o mundo nos reservava outra sorte. Mas, nem tu nem eu optámos por outra vida em que não estivesse um e outro, ali, mesmo ali de mãos dadas, como verdadeiros amantes.
Sinto que o tempo me envolve, que o mundo me trouxe até aqui mais uma vez. Agora és minha e eu sou teu. Juntos temos mais poder, somos mais fortes. Vamos voar, vamos partir sem nos importar com o que vão dizer de nós. Acorda que tudo está perdido. Sente, chora, ri, mas faz isso depressa, se pensares voltas a perder-nos. Não olhes para trás, vamos!

Escreve, escreve, escreve, escreve comigo esta história que é só nossa. Somos uma viagem sem fim… somos uma aventura de alma unida… vamos… não deixes de sonhar… não dei… não…

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Não posso contar nas páginas dos jornais

     Esta é a história que não posso contar nas páginas dos jornais. O enredo não é nada de novo e muito menos traz qualquer novidade ao mundo literário. Contá-lo? Foi a pergunta mais sombria que se me colocou nos últimos meses. Mas ela merece que a conte. A imagem não me sai da cabeça. Tenho saudades. Confesso que jamais pensei que isso iria sentir-se mas a sua ausência perturba-me imenso.
     O cheiro a mar. Vê-la a correr de braços abertos pelo areal e a fugir às ondas, qual gaivota feliz.
     A chuva era imensa naquela noite. A trovoada apareceu pela madrugada e quando falhava a luz, só as velas ajudavam a afugentar as silhuetas que entravam quarto adentro cada vez que o trovão entrava mesmo sem bater. Levantei-me num ápice. As velas costumavam estar na gaveta da cozinha. Entre o ranger da porta e os clarões da trovoada, a minha sombra mais parecia um fantasma naquela casa tão grande.
    Nem as minhas viagens a Coimbra demoravam tanto como atravessar o corredor até à cozinha. Um ruído pouco habitual chamou-me a atenção. Não era medo. Era a sugestão de não saber o que esperar. Mais um clarão e o Tobias é transformado num tigre gigante.
     - Pobre gato, também não consegues dormir com este temporal?
   Uma festinha e lá foi ele para o caixote de cartão ali debaixo de um cadeirão ao lado do quarto de Joaninha.   Estava linda! Cresceu mesmo. Nem na faculdade via mulheres tão lindas. Se correr bem para o próximo ano também vai para lá.

      - Alto lá! Espera! Vou-me esconder aqui atrás do cadeirão. A mãe de Joaninha vem da cozinha com o…

folhetim #1