segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A tua voz irrita-me

 Lá no fundo do corredor. A tua voz. Outra vez. Era assim todos os dias. Já estranhava quando o estridente dos teus agudos não ecoavam como o chilrear dos pássaros. Sons repetidos. As mesmas formas. Iguais palavras tantas vezes. Precisavas arranjar justificação em cada momento contrariado. Mas ninguém tinha mais paciência. Estavas errada.

O meu pensamento era sempre teu. A minha teimosia não te deixava vencer, mas tu não entendias o meu propósito. Não te queria chateada. Queria-te, simplesmente! Apaixonada. Determinada. Agarrada aos meus braços com tanta força. Tu não entendias. Nunca entendeste….

As pessoas riam. Nós fazíamo-las rir. Isso irritava-te. Eu sabia e não parava. Porque te queria. Estranho jeito de amar. Bem o sabia, mas não tinha outra forma de o fazer.

Aquele dia foi o melhor. O espetáculo foi de tal forma bem preparado que o teu papel não passou de secundário. Eu brilhei. A comédia fazia de mim o melhor dos atores, enquanto tu te atiravas a responder prontamente às minhas provocações. Fácil. Tão simples. Não sabias era que tu tinhas o papel principal. Tudo girava à tua volta. 

 Foste embora. Mais uma vez. Ao fundo, ouvia a tua voz. Uma e outra vez. Mas tu não voltaste mais…

I - A tempestade

 Justiniano levanta-se assustado com o estrondo ensurdecedor que se fez sentir. A chuva, o vento e a continuada trovoada precipitam os tremores na Joaninha, a filha da criada mais antiga da casa, levando-a a correr de um lado para o outro como um pássaro atordoado à procura de abrigo. A sala fica de repente iluminada e Justiniano tenta acalmar Joaninha com as suas palavras sábias na arte do conhecimento das precipitações da natureza. A sua passagem pelo curso de Literaturas Clássicas em Coimbra tornava a sua elocução uma lei inquestionável.

No outro lado da casa, bem longe do centro de todas as atenções, a mãe de Joaninha dava-se ao desfrute com o Pároco da aldeia, relação que já se prolongava há anos, mas, a todo o custo, o plano que engendraram, em colocar D. Prazeres como uma senhora extremamente escrupulosa, continuava a ser muito esclarecedor e ninguém ousava questionar as visitas do Pároco repetidas vezes por semana à Casa Grande, mesmo que essas visitas se dessem durante a noite.

O Pároco tinha assumido, secretamente, com D. Prazeres a educação de Joaninha e preparava um pé-de-meia para que ela fosse estudar para Coimbra onde tinha frequentado o ensino superior o recém-licenciado Justiniano. O Senhor Conde, grande amigo do Abade, conhecia toda a estratégia e prometera ser cúmplice desta situação, disponibilizando-se em dar o seu nome como benfeitor nas despesas e até alguma ajuda se fosse necessário.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Quando as lágrimas...

 

"... molharam os meus lábios, entre pensamentos atropelados, percebi a imensidão do mundo."

Os Resineiros

 O suor de um homem doente,

Obrigado às vontades do tempo,

não deixa o pão sem fermento

aos filhos em construção.

A educação de um berço pobre

trouxe os reis e as oferendas...

 Cada um cada estilo cada irmão

cada amigo,

cada homem cada certeza

de toda e sempre

a mesma: Verdade!

23-05-2005

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O Menino do Moinho

 

Texto: Pedro Sousa  Ilustração: Ana Carolina

Havia junto a um rio um moinho muito velho, onde morava um Menino. Todos os dias, o Menino saía bem de manhãzinha para procurar alguma comida nos campos e nas fruteiras da região.
            Um dia, apareceu-lhe um agricultor muito mau que o viu a cortar um cacho de uvas e correu-o com um cajado. O Menino correu ferido por entre o centeio e só parou quando conseguiu chegar ao rio, perto do seu moinho. Não tendo forças para avançar caiu prostrado no chão.
            De repente, um jovem apareceu por entre uns arbustos à procura de uma bola e deparou-se com o Menino. Ajudou-o a levantar-se e perguntou-lhe se precisava de alguma coisa e o que tinha acontecido. O Menino contou-lhe que fora agredido quando pegava num cacho de uvas para comer. Era muito pobre, vivia sozinho num moinho abandonado junto ao rio da aldeia, porque ficara órfão e não tinha ninguém para cuidar de si. Por isso não ia à Escola e não conhecia ninguém.


O Espigueiro

Na sombra do sol se esconde

A espiga doirada

Empenhada entre centenas

De iguais rebentos.

As frechas abertas ao vento

Longe dos perigos do chão

Aguardam a secura completa,

Para a transformada farinha

Que alimenta outro rebento

De um rebento de outro rebento.

Coimbra, 24-05-2005


domingo, 19 de julho de 2020

Praia Fluvial do Avial, inauguração marcada…


E era, não era?

A pandemia veio trazer muitos dissabores, mas também nos obriga a refletir sobre o que deveríamos ter e ainda não temos.

Nos últimos dias, o calor tem sido imenso e o tão afamado rio do Avial, em Regadas, volta a ser o foco da atenção. É verdade que se aproxima Agosto, por si só já implica um reparo maior nas suas águas, mas estes dias e numa altura em que não se pode estar em ajuntamentos, o que seria diferente se as margens deste rio já estivessem preparadas com um belo areal e um barzinho a servir a malta... Claro, com todas as regras devidamente estipuladas pela DGS, até porque Regadas, ainda que não tenha nada de novo para mostrar nos últimos anos, que não estivesse já planeada pelos anteriores executivos, continua a ser a freguesia com mais pinta da zona sul do concelho. E uma coisa é certo, se é para estragar… é mesmo melhor não mexer!

É mais do que evidente que isto é puxar a brasa à minha sardinha, mas por falar em sardinha, e se este bar fizesse lá umas sardinhadas. Já estou a imaginar o barman: “só podem comer uma sardinha de dez em dez minutos, para não haver ajuntamentos!”

O certo é que estava previsto, numa promessa eleitoral, há cerca de 12 anos, que iam construir uma praia fluvial, no Avial, que seria feita em conjunto com a junta de Silvares. Não sei se Silvares tem conhecimento disto, mas todos sabemos que não há praia Fluvial para estas bandas. E, na verdade, ainda há rio porque era muito difícil apagar as suas margens…

Como dizia o outro, enquanto há vida há esperança. Nós acrescentaríamos, só naquela, enquanto a vida existir, muita água há de correr no Avial.

Só para mostrarem que não tenho razão no que digo, era mandar já para lá as máquinas na segunda-feira, espalhar uma areia pelos campos, construir um bar de apoio e colocar uma das associações de Regadas a explorá-lo para angariar fundos para as suas atividades.

Ai, espera lá! A ideia saiu da minha cabeça… já não vai dar!

Desculpem lá!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Agora, as pessoas, que supostamente têm tudo, queixam-se da falta umas das outras...


Hoje uma paciente entrou muito agitada no meu consultório. A sua angústia era de tal modo perturbadora que pedi logo que se deitasse um pouco na marquesa. Fizemos um jogo de respiração inicial, depois coloquei uma música calma e disse-lhe simplesmente para fechar os olhos. Sentei-me no cadeirão e esperei. Observava cada movimento das suas mãos, até que finalmente o relaxamento tomava conta do seu corpo. Estávamos preparadas para iniciar a sessão. Não a deixei levantar. Apenas pedi que me contasse o que a deixava tão angustiada. 
- O meu namorado. O meu namorado não me fala do mesmo modo. O meu namorado já não me diz coisas bonitas. A nossa vida são só discussões. Não conseguimos mais ter uma conversa normal.
- Já lhe disse isso? Já tentou falar com ele e dizer-lhe que precisam de parar para se ouvirem um ao outro? - perguntei eu.
- Já tentei tudo, mas ele não me ouve. Tem sempre que fazer na oficina. Está obcecado por mudar de carro e precisa de dinheiro. Ele diz que não nos falta nada!
Às vezes o problema das pessoas é só este. A falta de diálogo. A obsessão por ter mais e mais e esquecem-se do mais importante, aqueles que estão ao seu lado. Os novos problemas não são mais a falta de recursos materiais. Agora, as pessoas, que supostamente têm tudo, queixam-se da falta umas das outras...
in sem chance