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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Aceita que dói menos…


Ontem, enquanto percorria mais uma vez a marginal, numa das caminhadas já habituais após o jantar, dei por mim a pensar o que pode levar um tipo a pegar num saco às costas e partir por esse mundo fora. Muitas vezes o porto até nem é muito longe, mas o mesmo não se pode dizer quando a língua que se ouve não é a nossa.
Um saco. Um saco grande. Cabia lá tudo o que tinha. Foi a única pessoa que me deu as boas tardes, ou buenas tardes, mesmo que a noite já se fizesse notar. E lá ficou naquele banco de jardim depois de eu ter retribuído o seu simpático gesto. E é assim por aqui todo o ano. Há sempre forasteiros, sozinhos, em grupo, ou até com o seu fiel amigo. Bem tratado por princípio.
A minha dúvida mantinha-se: o que pode levar um tipo a meter tudo o que tem num saco e sair por aí?
Serão, certamente, muitas as respostas possíveis, mas nenhuma delas será mais forte quando nos apercebemos que são as regras sociais que falham e atiram milhares de jovens à procura, tantas vezes, de nada! São as leis que nunca prendem poderosos. É o compadrio que protege a matilha. É a provocação da necessidade para levar ao beija mão, pois só assim qualquer pobre diabo ficará eternamente sob a sua alçada.
E o que faz o homem para mudar isto? Nada! Pelo contrário, revolta-se contra os que lhes apresentam as leis… afinal, não sabem ler!
Chego a casa. A caminhada já terminou. Amanhã a viagem trará novos desafios intelectuais ou será mais um passeio pela saúde e um belo apreciar da natureza. Tudo o resto não passa de uma realidade vestida de fantasia. 

sábado, 5 de setembro de 2015

WELCOME TO…


… em todo o lado!
Este deveria ser o lema de qualquer país, mas também de qualquer cidade, aldeia, numa casa de família ou num local de trabalho. Não é assim, infelizmente! Há terrorismo em todos os lados…
As notícias são prova disso. O terrorismo não é só feito de pólvora, mas também de violência e abusos corporais e de palavras ofensivas e tudo isto porque a pequenez da mente humana é capaz de tudo para se equiparar a Deus. Não consegue. Jamais. Acredite-se ou não num ser superior, ninguém é mais do que ninguém…
Esta imagem é belíssima. Alguém trouxe um brinquedo para a criança que chega. Não sei quem deu. Mas também não importa. Certamente que essa pessoa ficou muito feliz com essa ação. E também feliz aquela criança que só tem a roupa do corpo e, o melhor de tudo, o calor do colo de sua Mãe.
Obrigado pelo presente. Não foi para mim, mas é como se fosse.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

É preciso acabar com o coronelismo


     Coronéis e seus Jagunços. Senhoras da sociedade muito religiosas e defensoras extremas da moral e dos bons costumes. Os Maridos são clientes assíduos do ‘Bataclan’ e as esposas não passam de objetos ao serviço das necessidades básicas daqueles que as possuem como uma propriedade: «Suba que vou-lhe usar». O marido tem direito, a esposa tem dever. O homem tem as suas necessidades e a mulher não pensa, não sente, não estuda, não trabalha…
     A reposição da novela inspirada na obra de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, está a chegar ao fim e confesso que fui um espetador muito atento. As palavras daqueles que tiveram a oportunidade de visualizar a primeira versão mereciam-me uma atenção especial. A descrição de uma sociedade escandalizada com a apresentação de situações, em nada aceitáveis para gente de bem, contrastava com a necessidade de ‘querer’ ver mais. Crítica e aplauso? Simplesmente o retrato de uma sociedade…
     Depois de tantos anos, a “Gabriela” continua a ter espetadores. Continua a fazer sentido e, principalmente, ainda é um retrato por excelência de tantas e tantas situações da sociedade, principalmente dos meios mais provincianos. Agora os coronéis são outros, mas ainda há alguns jagunços. As mulheres têm direitos, mas também continua a existir as ‘defensoras da moral e bons costumes’ como antes, com todos os defeitos e mais alguns… daqueles defeitos que só os outros têm, apenas até ao dia em que os seus são conhecidos. Na Igreja ainda há os que só pensem em dinheiro, recorrendo à ‘caridade’, porque bem-aventurados são os pobres… Os bordéis reúnem os mesmos argumentos e na política, às vezes, ainda aparece o coronel e seus jagunços…
     Acabar com o ‘coronelismo’ era a motivação maior de Mundinho Falcão. O contraponto entre a sociedade hipócrita, defensora acérrima dos usos e costumes mas com mais defeitos do que os outros, e a sociedade progressista que pretende abrir horizontes e proporcionar uma vida mais igual entre os povos. A obra acaba bem. Tem um final feliz. E na vida real?
     Continua a ser preciso acabar com os coronéis e seus jagunços!
               Pedro Miguel Sousa, 
in Jornal Povo de Fafe (18 de Janeiro de 2013)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quando se conjugam forças…


… as coisas simplesmente acontecem.
            Há momentos na vida para tudo: sonhar, gritar, saltar, chorar, rir, acreditar, desacreditar, encarar… e amar. O amadurecimento reconhece-se a partir daquele momento em que já não importa o que dizem os outros sobre as nossas ações, mas importa a sensação que cada ato nos provoca. O dealbar de cada dia tem sempre mais uma vitória a alcançar quanto se tem em mãos o único objetivo fundamental ao ser humano, viver.
            É tão bom saber olhar tudo o que nos rodeia com harmonia. Acreditar nas plantas, nos animais, nos gestos mais inocentes. É certo que nem tudo surge com a melhor das intenções, mas qualquer espírito mais atento saberá resguardar a sua exposição de modo a que os mais cobiçosos jamais alcancem a confiança desejada.
            Se em tempos, bem remotos, determinadas apostas culturais, artísticos… e mesmo académicas estavam ao alcance de uma elite, hoje sabemos que enquanto uns exigem um esforço maior (os académicos, se não forem aldrabados), por outro lado as mais diversas atividades culturais, artísticas, desportivas, recreativas… estão bem ao alcance de todos aqueles que ousarem arriscar um pouco do seu tempo em prol de uma causa específica.
            A educação, a cultura, a arte, o desporto, a ação social… não são pertença de um grupo de elite, embora os meios de comunicação social nos façam parecer isso, porque quase só sabem fotografar ou destacar os seus dirigentes, quando estes, tantas e tantas vezes, só aparecem para cortar a fita. As comunidades, as associações ou os simples grupos têm sempre muito mais gente a trabalhar em favor de uma determinada causa do que aquelas que surgem aos olhos do mundo e pode-se provar que tudo acontece porque há uma enorme conjugação de forças, o que vem provar que subestimar os que estão em posição hierárquica inferior nem sempre acarreta bons resultados, porque estes muitas vezes lembram-se e arriscam sozinhos e as coisas simplesmente acontecem.
            Toda esta reflexão bem a propósito de exemplos conhecidos na organização social das comunidades e a envolvência do meio com os factos. A sociedade é mesmo pouco exigente em matéria de produção e isso reflete-se nas notas informativas da comunicação social. Se os leitores dos jornais exigissem saber mais, por exemplo conhecer todos os envolvidos para que um festival, uma feira ou uma festa qualquer, a notícia não focaria as atenções no individual mas teria de abordar o coletivo. Talvez seja este o trabalho que falta fazer para que as pessoas deixem de ser controladas pelos detentores do poder, porque ao conhecer quem realmente impulsiona os trabalhos (como acontece com a ficha técnica de uma peça de teatro) serão estes que merecerão o aplauso do público e só há duas opções: ou todos trabalham ou os chefes caem (confesso que já vi este filme).
            A ideia aqui abordada não tem nada de novidade, mas merece destaque porque é o que está acontecer com o impulso da blogosfera que vem dar voz direta ao povo ao trabalhar diretamente com os cidadãos. O que os jornais rejeitam, cabe muito bem nos blogues e o concelho de Fafe disso já não se livra, porque surgiu um blog que revolucionou a blogosfera em Fafe, o Blog Montelongo, e a rede já é enorme e está espalhada pelo mundo.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (13/07/2012)

sábado, 19 de maio de 2012

Fafe perde serviços porque não sabe ouvir


A cidade de Fafe está a ser reduzida a um dormitório. Esta é uma realidade que não se pode mais ignorar. Vão surgir múltiplas explicações ao sucedido nos próximos tempos, usando sobretudo os cortes na administração pública como principal evidência, mas a falta de movimentação das pessoas é reflexo de um desprezo sentido em não ver resolvidas as suas reais necessidades e que levou a uma adaptação às realidades que surgiam.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Motivo de orgulho não é jantar com uma mulher diferente todos os dias, mas sim convencer a mesma a jantar connosco!

Dia dos namorados
Numa sociedade ainda muito dominada pelo homem, a postura do galã ou talvez do playboy é das poucas referências que a maioria dos homens tenta alimentar e de se gabar aos amigos. No percurso da adolescência para a juventude contabiliza-se a quantidade de cerveja e outros produtos menos lícitos, os mais velhos viram-se para as conquistas, embora muitas delas só obtidas pelo recurso ao dinheiro.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As declarações de Cavaco Silva, os universitários que abandonam os estudos e os buracos nas estradas

Os jornais habituaram-se a viver de temas semanais. Todos eles são importantes, principalmente quando se trata de um estado de direito, mas nem todos são tratados com a devida importância. Uns porque vendem mais outros porque ‘interessa’ mais.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fafe, terra das merendas


Vamos comer uma merenda…
Uma paisagem singular faz de Fafe uma terra aprazível. Rios e ribeiros, campos e montes contrastam numa natureza invejável para quem consome fumos e ruídos citadinos diariamente. As casas de turismo rural, as residenciais e o hotel, bons restaurantes, cafés, bares e discotecas preenchem os dias e as noites de todos os que procuram visitar este concelho. Um património muito diversificado, ainda que pouco ou nada preservado, começa a despertar a atenção de alguns que há muito sabem que é na preservação dos bens materiais e imateriais que se constroem as identidades de qualquer região. Afinal, o que faz falta?
A resposta seria fácil para os amigos da luta, logo nos lembrariam que ‘o que faz falta é animar a malta’. Atendendo a esta deixa, até porque a vida é curta, resolvemos inverter alguns pensamentos para tentar compreender o que motiva os nossos governantes a insistirem em altos passeios, sempre ao mesmo local – famosa Quinta da Malafaia. São vários autocarros que anualmente se perfilam de Fafe à Malafaia. Qual o objectivo? Apenas um, todos sabemos, mas vamos deixar esse de lado, porque é do conhecimento comum, e vamos analisar esta aderência em massa. Ou seja, se todos os anos há tanta gente a participar, se há governantes que incentivam a esta movimentação e até os há que dizem que o que as aldeias precisam é deste tipo de coisas porque os mais jovens não querem saber de nada… não seria importante incentivar à abertura das tradicionais tascas?
Ouve-se tantas vezes: ‘Faz-me lá esse favor que depois vamos comer uma merenda’; ‘Temos de ir comer uma merenda’.
A cultura de Fafe está sobretudo no estômago e é ele que permite muitas das vezes com que os lugares melhores sejam para os que vão pagando umas merendolas. Haverá necessidade de fugir da realidade e querer mostrar o que não se é? Fafe é mesmo isto, terra de tainadas, o que não tem de ser um defeito se aproveitar a sua excelente gastronomia e se tornar uma referência em toda a região norte e quiçá além fronteiras.
Agora, se juntarmos às belas paisagens o sabor e aroma dos alimentos, Fafe ficará a ganhar numa aposta que criará empregos através do investimento em casas de repasto de qualidade excelente.
Pedro Miguel Sousa
in Jornal Povo de Fafe (07-10-2011)

sábado, 4 de junho de 2011

Solidariedade ou Promoção Social?


Engalfinham-se em disputas atormentadas. Passam por cima de tudo e de todos para conseguir ficar junto ao altar da igreja, ocupar o lugar do chefe ou, tantas vezes, mostrar que são os mais importantes da sua parvónia! Atiram para o vento palavras vãs como se fossem verdadeiros intelectuais, mas nem a junção de duas simples palavras conseguem sequer pronunciar. Os amigos, falsos, logo o deixam de ser se em causa estiver mais uma hipotética promoção, mesmo que esta seja em cargos bem baixinhos, mas o importante é o destaque social. Agarram-se a projectos por outros possibilitados para agora se fazerem passar por heróis, mas os outros é que determinaram o futuro ao proporcionar a base para a candidatura do projecto. Ao seu redor, os oportunistas do sistema com o objectivo de conseguir a construção da obra ou mais um emprego para o marido, a mulher, o filho, a filha, a nora, o genro… e, as obras nem começaram, mas já não faltam promessas e lugares destinados. Será que vão chegar para todos?
Este é um pequeno retrato de uma sociedade que se diz preocupada com o bem comum, o bem social, mas os mesmos que o apregoam são os que apunhalam pelas costas os sócios, às vezes amigos até ao momento, para passarem por cima do bem social que estava inicialmente estipulado. Verificando que até estão à frente de uma organização, logo se perfilam e até se oferecem ao senhor presidente da câmara para serem candidatos pelo seu partido… e este às vezes recusa!
À primeira vista, perante isto, só se pode dizer: ‘Que sociedade! Que podridão!’
Mas, pensando bem, nada disso! Também não é assim tão mau, apenas são alguns maus exemplos que nos obrigam a crescer e a ver que afinal aquelas pessoas que tínhamos por boas não o são, paciência. O grande problema não está aqui, mas no facto de serem elas que poderão vir a estar à frente de organismos de solidariedade social, a trabalhar nas escolas e… nesses locais… é preciso saber ter carácter!
Esta semana celebrou-se o dia da criança. Apesar de ser para mim mais um dia, porque acredito que todos os dias são ‘dias da criança’ não pude deixar de pensar na função desse mesmo dia. Esta celebração só faz sentido porque ainda há muitas crianças que vivem em condições péssimas, maltratadas por tudo o que as rodeia, mesmo por aqueles que deveriam fazer tudo por elas. Há crianças que chegam às escolas tristes, deprimidas, que ninguém sabe o que têm, mas logo é perceptível que a vida familiar não é a melhor. Há crianças que não conseguem estar atentas porque têm fome, umas de alimentos, mas muitas de carinho!
A todas essas crianças desejamos que encontrem instituições (creches, infantários, escolas… e às crianças mais velhas, lares) com dirigentes a sério. Nunca como aqueles que tudo querem para se promover, mas os que tudo têm para lhes dar! E, certamente, não é dinheiro…
Pedro Miguel Sousa,
in Jornal Povo de Fafe (03-06-2011)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A queima das fitas espelha o país


Num país em crise com eleições à porta, não podia faltar a sátira política na Queima das Fitas de Coimbra. Apesar de um momento de grande aflição para as famílias portuguesas, Coimbra continua a receber milhares de forasteiros que ano após ano se deslocam para ver passar mais um cortejo, que envolve todos os presentes, criando um ambiente de cumplicidade quer nos estudantes quer nas famílias ou simplesmente espectadores.
Apesar de todos os excessos cometidos, alguns até perigosos, seleccionamos este tema para tentar construir algumas confrontações com a vida no seu dia-a-dia, sendo o local escolhido Coimbra, não só porque é o que temos maior conhecimento, mas também porque o nosso jornal fora credenciado para acompanhar as suas festividades. ‘Deolinda, Editors, Marcelo D2, Quim Barreiros, David Fonseca, Diabo na Cruz, Yolanda, The Gift, James’ foram alguns dos espectáculos que passaram no palco principal do Queimódromo no Parque da Canção. Embora nem todos sejam de nacionalidade portuguesa, o certo é que este ano o cartaz da Queima das Fitas em Coimbra mereceu uma atenção especial para as bandas de língua oficial portuguesa, o que pode ser mais uma aposta certeira na projecção que isto pode ter no panorama nacional, uma vez que está a acompanhar a formação de um novo público, mas também no panorama internacional, visto que a academia acolhe centenas de estudantes de outras partes do mundo.
Se este país está a atravessar um momento complicado, não se pode baixar os braços mas deve-se apostar numa internacionalização do próprio país, que passa por uma reestruturação na forma de ser e de estar, podendo, deste modo, conseguir captar mais turistas que procuram, num local tão pequeno, um conjunto de ofertas tão variado e de qualidade. Talvez, pensamos nós, seria muito bom que todas as autarquias deste país pensassem numa aposta concreta no que têm de melhor, antes que alguém pergunte – não se trata apenas de queima das fitas, mas de tudo aquilo que possa representar a qualidade de uma determinada região e se torne uma marca localizada. Para isso, os detentores do poder têm de ter duas coisas: conhecimento e humildade. Conhecimento que as coisas existem e com capacidades reconhecidas, humildade para ir buscar os melhores e não os que trazem mais votos políticos, até porque no geral todos sabemos que em questões de cultura e arte, não são os que levam autocarros, porque são muitos, aqueles que melhor capacidade artística apresentam.
Para sermos mais claros, há mesmo muito a fazer nas áreas da cultura, das artes e do turismo para promover qualquer concelho, e já nem falamos na indústria, mas nunca se conseguirá obter um mérito reconhecido enquanto se fechar dentro de quatro paredes. Enquanto isso não acontece, vai-nos valendo quem já despertou e saiu do conforto do ar condicionado para oferecer os melhores momentos.
Retomando o assunto inicial e o flagelo das famílias portuguesas, é muito preocupante o que já está a acontecer com o abandono daqueles que não conseguem pagar a sua permanência no ensino superior. O estado recolhe os nossos impostos, disso não nos livra, por isso tem de o saber devolver àqueles que por mérito entram nas Universidades ou Politécnicos deste país, porque se não o fizerem estarão a contribuir para uma sociedade em que só os filhos dos senhores fulaninhos é que podem estudar. Isto era o que acontecia no tempo do fascismo, ‘filhos de pobres não estudavam e muitos dos filhos dos ricos eram levados ao colo’. Esperamos que seja apenas uma passagem infeliz dos nossos (des)governantes e que as festas estudantis continuem a ser a alegria de que Portugal tanto precisa.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (13-05-2011)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. (...)"


“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro”.
Otelo Saraiva de Carvalho, Jornal Público, 13-04-2011
O 25 de Abril está a chegar e com ele as reacções a mais um ano após 1974. Data que tem sido sistematicamente comemorada, mas ao que tudo indica este ano não o será na Assembleia da República. Ainda que esta esteja dissolvida, não ficaria mau uma passagem pelo local que durante estes anos todos decidiu o rumo deste país. Embora se compreenda que os deputados estejam ‘demitidos’, não custava nada ir até Lisboa e comemorar o dia da revolução dos cravos. Como a vida não está fácil, não daria para um alto banquete mas, como somos portugueses, não seria muito difícil preparar um farnelzinho com produtos da região de cada deputado, e partilhar como irmãos que comem do mesmo tacho nos belos jardins de S. Bento. Vejam bem, ainda permitiria que estes alimentos fossem saboreados e todos, agora no desemprego, criassem uma empresa de comércio de produtos regionais, a economia começava a subir e com qualidade, porque «O que é nacional é bom».
Apesar desta brilhante iniciativa, se acontecesse, a verdade é que o espírito não seria o mesmo. Afinal, os senhores estão demitidos das suas funções, certamente às portas dos Centros de Emprego como tantos milhares, disfarçados para não serem reconhecidos, porque podem ser apupados se descobrem que também contribuíram para esta situação. Se a ‘Geração Rasca’ conseguiu destacar-se, numa manifestação pacífica, abrangendo gentes de todas as gerações, significa que os nossos políticos foram uns grandes falhados, mas com palavras como as de Otelo Saraiva de Carvalho as coisas mudam de figura, pois é a machadada final nestes políticos rascas que atiraram as nossas vidas para um buraco sem fundo. Otelo fala nas desigualdades sociais, na discrepância de ordenados existente entre os gestores públicos e os que se levantam às cinco da manhã todos os dias e ganham uma ‘miséria de ordenado’. Nós, porque também defendemos estes mesmos ideais, falamos de todos aqueles que provenientes de famílias pobres ou remediadas se aproveitaram do 25 de Abril para nunca deixar o poder, mesmo que as suas ideias já nada servissem a população. Falamos de todos aqueles que se reformaram da política e usufruem de ordenados chorudos, porque ainda são novos para a verdadeira reforma. Falamos de todos que precisavam que viesse um carro de Lisboa para os levar do Porto a Braga e voltar para Lisboa, porque eram senhores da política e não podiam ir de comboio, não tinha sentido de estado.
Enfim, foram erros a mais num país tão pequeno. Foi viver mais do que as possibilidades, por isso, agora nós, porque somos todos iguais, ajudaremos a pagar a factura. Quando se penduravam nas gravatas achavam-se superiores, mas quando se extinguiu o fundo já nos consideram todos iguais… Contudo, não sei se tenho mais pena do país ou das pessoas. Sabem porquê? É que o país, de uma ou outra forma, vai continuar a ter ricos e pobres, viver de aparências ou ilusões, com fome ou farto, mas as pessoas não vêem isso, muito pelo contrário, há mesmo muita gente tão mal formada que deixa que estes abusos aconteçam sucessivamente. Uns dizem que podem precisar deles, outros têm medo, a maioria porque não sabe mais e, enquanto isto acontecer, há aqueles também pobres coitados - mas mais espertos do que os seus semelhantes - que se vão aproveitando e conseguindo os melhores tachitos, por isso, que não se magoe ninguém e se quiserem abrir as pestaninhas abram, mas se não quiserem não digam que não avisamos.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (15-04-2011)