segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Arte, Cultura e Património


“Actualmente [a cultura] não tem nenhuma relação com a sociedade, e esta separação leva-nos a uma conclusão perigosa: que a cultura está estritamente ligada à lei, à produção, ao dinheiro, ao produto nacional, ao status de cada indivíduo dentro da sociedade”, Joseph Beuys.

     O setor cultural e artístico, parente pobre dos executivos sem visão estratégica, definha-se ainda mais quando em causa estão valores estritamente economicistas. Deixar este setor à mercê do acaso ou da simples benevolência de um grupo mais empenhado em servir o poder é permitir o fim da criação artística, o que vem a estrangular a identidade de uma população.
     As autarquias têm um papel fundamental na preservação da identidade da comunidade que representam. Esse papel pode ser abordado com sentido elevatório ou destruído sem deixar prevalecer as raízes culturais, artísticas e patrimoniais. Questionar a cultura nas suas origens, tradições e festejos, assim como permitir a prática da criação, pode significar não só o avanço da comunidade, numa perspetiva evolutiva no conhecimento proporcionado aos cidadãos, mas também em questões económicas se isso possibilitar uma marca capaz de provocar a lei da oferta e da procura.
     O concelho de Fafe é vasto em património cultural, mas não o tem sabido encarar com o respeito merecido. São múltiplas as aberrações cometidas ao longo do tempo, seja na destruição (escolas; moinhos…), no restauro (pontes), ou na própria descaracterização do tradicional nas mais diversas festividades. Fafe não cria identidade, porque não quer ou não sabe, não aproveita os recursos, não concebe uma estratégia capaz de levar o seu nome e ver o retorno nas visitas turísticas, sem necessitar de despojar quantias avultadas em programas televisivos.
     A cidade de Fafe está equipada com bons edifícios para prática cultural (Teatro-Cinema; Biblioteca; Casa da Cultura; Museus; Sítios Arqueológicos; Escolas… Moinhos; Alpendres… o próprio Mercado Municipal), mas falta-lhe um plano de ação, o delinear de uma estratégia que conjugue todos os esforços para uma prática constante de pesquisa e posterior promoção de eventos culturais e artísticos. Essa estratégia, por exemplo, à imagem do que já acontece com as entidades ligadas à Música, passa pela instalação de outros grupos artísticos (Artes Plásticas, Artes do Espetáculo e Performativas) no Teatro-Cinema ou mesmo em Escolas abandonadas, mas grupos obrigados a produzir e a envolver a comunidade, dotados de reconhecido valor nos seus recursos humanos, que possam contribuir para uma comunidade efetivamente criativa através da formação de novos públicos, preservar o património imaterial e, ao mesmo tempo, permitir-se enveredar pela experimentação de outras expressões artísticas (Teatro, Música, Dança, Cinema, Escultura, Pintura, Fotografia…) e literárias (Poesia, Conto, Romance, Dramaturgia…).
     Apostar na cultura é provocar o desenvolvimento. Envolver o meio empresarial nas atividades culturais e artísticas, a médio e longo prazo, representará um alargar de horizontes e ultrapassar barreiras ideológicas. Está mais do que na hora de traçar linhas de orientação sem olhar a clubismos ou partidarismos. A cultura é de todos.
in “Notícias de Fafe” (23-02-2013)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Brindar aos amigos com dinheiros públicos


     Se correr bem há lucros para os acionistas, se correr mal o Estado repõe o dinheiro!
     A mentalidade portuguesa dos gestores das empresas públicas ou público-privadas é uma enorme fraude. Estas empresas nunca perdem e jamais pensam em abrir falência, a não ser que já estejam assegurados outros taxos para os seus gestores. Como todos comem da mesma gamela nunca está em causa a sua dissolução. Os interesses falam bem mais alto.
     A reportagem sobre o caso BPN é apenas um exemplo claro do que um só Banco fez para que hoje a vida dos portugueses esteja infernizada. Este banco tem rosto, melhor ainda, tem vários rostos, todos eles ligados à vida política, perfilando nos dois maiores partidos deste pequeno país. E o que lhes acontece? São premiados com nomeações para altos cargos nacionais e internacionais. Viva a canalhice, viva a fraude, viva a estupidez de um povo calado e sereno que só serve para ‘ralhar’ quando não lhe dão as migalhas habituais.
     Estas situações não acontecem apenas nos bancos e nos grandes, vejamos bem ao nosso lado: será que não andam por aí algumas pseudoempresas, disfarçadas de autónomas, geridas por próximos do poder político, sem produzir nada de jeito, mas que dão prejuízo e nunca ficam mal nos orçamentos porque há sempre uma mãozinha para tapar os buracos que vão deixando?
     Portugal é isto! Um grupo de indivíduos endinheirados, outro de malta bem posicionada e muitos mais a aproveitar as migalhas que vão deixando escapar entre cada ferradela no mais saboroso dos manjares reais. E as lutas, as guerras? Estas são feitas pela classe baixa. Os pobres de espírito ou de cultura, porque não conseguem perceber que os grandes se protegem, jantam juntos e até partilham as mesmas festas. Se um perder, perdem todos. Isto passou-se com o BPN, dizem uns que era gerido por malta do PSD mas a verdade o PS não deixou cair. Seria pior para o país? Não! Seria apenas mau para os tais amigos, porque se o país indemnizasse os clientes do banco ficava-lhe bem mais barato do que a nacionalização.
     Mas, por que é que não se deixou cair o banco? Não era uma empresa privada? Não há tantas empresas privadas a abrir falência? Infelizmente há, o que faz o estado para as proteger? Nada, quando a maior parte das vezes bastava perdoar a dívida ou parte dela e a empresa continuaria a laborar e a produzir.
     Deixemo-nos de lamechices e comecemos a exigir mais os nossos direitos. No poder só prevalece lá quem nós quisermos. Enquanto só pensarmos nas nossas vidas, não receberemos mais do que migalhas. Contudo, na nossa opinião, quem tem o trabalho merece o pão inteiro.
Pedro Miguel Sousa

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

BAKALHAU

     Na semana passada, devido à minha atividade profissional, acompanhei os alunos à exposição “BAKALHAU”. Uma exposição coletiva de pintura, escultura e fotografia subordinada ao tema ‘bacalhau’, organizada pela Galeria NUNO SACRAMENTO|ARTE CONTEMPORÂNEA, inaugurada em Dezembro e estará aberta ao público até Março em quatro locais diferentes em ÍLHAVO: Museu Marítimo de Ílhavo; Centro Cultural de Ílhavo; Navio Santo André e Centro Cultural da Gafanha da Nazaré.
     O recurso a este assunto não se prende com a exposição em si e as obras apresentadas, ao qual se reconhece qualidade inegável, mas pretendemos destacar o apetrecho desta pequena localidade junto a Aveiro que demonstra uma forte viragem para as questões culturais e patrimoniais como ‘alavanca de progresso’. A autarquia tem feito um trabalho notório no que respeita à identidade de um povo de pescadores de bacalhau. Construíram um Museu alusivo ao Mar e dão-lhes vida ao atrair milhares de visitantes, quer com exposições pontuais quer com a própria exposição permanente das barcaças e da vida dos pescadores e agora com o aquário de bacalhaus. Para esta exposição, os curadores recorreram a locais diferentes, espalhados pelo concelho.
     As cidades não precisam ter sempre ideias originais para dinamizar as suas atividades. Às vezes basta copiar o conceito e adaptar à realidade de cada terra. Há muito tempo que venho a defender uma aposta que englobe o concelho de Fafe e não se limite à cidade. Não se deve isto, de modo algum, ao facto de residir numa aldeia, até porque as aldeias são diferentes e defendo este tipo de ações em todas que possam representar uma mais-valia. Por exemplo, se Fafe tivesse um Museu do Trabalho Rural faria todo o sentido, na organização de uma exposição alusiva ao tema, usar o espaço da Casa da Cultura, do Teatro-Cinema, da Biblioteca mas também o Museu de Aboim. É claro que para isso era necessário conhecer a verdadeira identidade de Fafe.
     Num artigo intitulado “Cafés” publicado no Blog Montelongo, António Daniel faz um levantamento exaustivo de cafés mais emblemáticos de Fafe, na sua maioria desaparecidos, terminando com uma interrogação: «Por que razão os fafenses raramente souberam acarinhar o tempo?»

     A maior parte dos nomes de estabelecimentos não conheço. Mas concordo com a questão. A cidade de Fafe (ou os seus políticos), mesmo depois de todas as indicações comunitárias, ainda olha para o antigo como uma coisa 'velha' e destrói (Escolas, moinhos…).
     Não sei se já repararam, mas os atuais responsáveis andam à procura da nossa identidade do outro lado do atlântico. Pomposamente designam a cidade de 'Fafe dos Brasileiros'. Não menosprezando o brilhante trabalho de pesquisa de Miguel Monteiro, que foi meu professor no Ciclo e que eu admirava por andar sempre à procura de saber coisas antigas - um dia viu-me na minha freguesia e parou para me perguntar o nome de uma casa de lavrador (Casa do Niz) - na altura não percebia muito, hoje sei que estava a reunir material (da nossa identidade), contudo não se pode pensar que somos todos descendentes dos 'torna-viagem'. A identidade de Fafe está em Fafe. As suas gentes. A sua ruralidade. Nas casas dos brasileiros mas também nas casas dos lavradores (ou da lavoira). Miguel Monteiro também tem estudos sobre isso. Se me permitem uma indicação de leitura: 'Morgado de Fafe em Lisboa' de Camilo Castelo Branco. Esta dramaturgia é excelente para quem quer investigar sobre a nossa identidade.
Pedro Miguel Sousa