sábado, 2 de fevereiro de 2013

BAKALHAU

     Na semana passada, devido à minha atividade profissional, acompanhei os alunos à exposição “BAKALHAU”. Uma exposição coletiva de pintura, escultura e fotografia subordinada ao tema ‘bacalhau’, organizada pela Galeria NUNO SACRAMENTO|ARTE CONTEMPORÂNEA, inaugurada em Dezembro e estará aberta ao público até Março em quatro locais diferentes em ÍLHAVO: Museu Marítimo de Ílhavo; Centro Cultural de Ílhavo; Navio Santo André e Centro Cultural da Gafanha da Nazaré.
     O recurso a este assunto não se prende com a exposição em si e as obras apresentadas, ao qual se reconhece qualidade inegável, mas pretendemos destacar o apetrecho desta pequena localidade junto a Aveiro que demonstra uma forte viragem para as questões culturais e patrimoniais como ‘alavanca de progresso’. A autarquia tem feito um trabalho notório no que respeita à identidade de um povo de pescadores de bacalhau. Construíram um Museu alusivo ao Mar e dão-lhes vida ao atrair milhares de visitantes, quer com exposições pontuais quer com a própria exposição permanente das barcaças e da vida dos pescadores e agora com o aquário de bacalhaus. Para esta exposição, os curadores recorreram a locais diferentes, espalhados pelo concelho.
     As cidades não precisam ter sempre ideias originais para dinamizar as suas atividades. Às vezes basta copiar o conceito e adaptar à realidade de cada terra. Há muito tempo que venho a defender uma aposta que englobe o concelho de Fafe e não se limite à cidade. Não se deve isto, de modo algum, ao facto de residir numa aldeia, até porque as aldeias são diferentes e defendo este tipo de ações em todas que possam representar uma mais-valia. Por exemplo, se Fafe tivesse um Museu do Trabalho Rural faria todo o sentido, na organização de uma exposição alusiva ao tema, usar o espaço da Casa da Cultura, do Teatro-Cinema, da Biblioteca mas também o Museu de Aboim. É claro que para isso era necessário conhecer a verdadeira identidade de Fafe.
     Num artigo intitulado “Cafés” publicado no Blog Montelongo, António Daniel faz um levantamento exaustivo de cafés mais emblemáticos de Fafe, na sua maioria desaparecidos, terminando com uma interrogação: «Por que razão os fafenses raramente souberam acarinhar o tempo?»

     A maior parte dos nomes de estabelecimentos não conheço. Mas concordo com a questão. A cidade de Fafe (ou os seus políticos), mesmo depois de todas as indicações comunitárias, ainda olha para o antigo como uma coisa 'velha' e destrói (Escolas, moinhos…).
     Não sei se já repararam, mas os atuais responsáveis andam à procura da nossa identidade do outro lado do atlântico. Pomposamente designam a cidade de 'Fafe dos Brasileiros'. Não menosprezando o brilhante trabalho de pesquisa de Miguel Monteiro, que foi meu professor no Ciclo e que eu admirava por andar sempre à procura de saber coisas antigas - um dia viu-me na minha freguesia e parou para me perguntar o nome de uma casa de lavrador (Casa do Niz) - na altura não percebia muito, hoje sei que estava a reunir material (da nossa identidade), contudo não se pode pensar que somos todos descendentes dos 'torna-viagem'. A identidade de Fafe está em Fafe. As suas gentes. A sua ruralidade. Nas casas dos brasileiros mas também nas casas dos lavradores (ou da lavoira). Miguel Monteiro também tem estudos sobre isso. Se me permitem uma indicação de leitura: 'Morgado de Fafe em Lisboa' de Camilo Castelo Branco. Esta dramaturgia é excelente para quem quer investigar sobre a nossa identidade.
Pedro Miguel Sousa

1 comentário:

  1. Ora aí está, Pedro. De facto o morgado pode dizer muito. Não tinha pensado nessa óptima ideia.

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