sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“Pensar incomoda como andar à chuva”

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
Os raios solares invadem o meu espaço no preciso momento de uma apressada releitura de Pessoa. A sua intenção tão marcadamente natural e objectiva em Alberto Caeiro é confrontada num leitor atento, mas que continua a apostar na arte enquanto comunicação estética. Neste momento, a dimensão artística/literária ganha um outro mundo, uma nova leitura, e o verso perdido entre os demais torna-se o resultado de uma avaliação perfeita à sociedade dominada.

A sociedade está cheia de pseudo-intelectuais que procuram tolher o pensamento dos outros. Seitas e mais seitas apropriam-se até do religioso, influenciando aqueles que em princípio deveriam estar melhor formados, para lançar poeira sobre os fracos, os mais desprotegidos. Políticos mal intencionados, usando insistentemente a primeira pessoa do singular das formas verbais auxiliada pelo pronome pessoal ‘eu’, para que não reste dúvidas do seu poder, assumem-se como conhecedores absolutos e não permitem a discussão de ideias. Até nos mais pequenos e insignificantes grupos aparecem os líderes que tomam a parte pelo todo e as suas ideias têm de prevalecer simplesmente porque são os chefes, os presidentes ou os directores. Para estes casos, quando surge alguém que confronte e questione, reconhecemos que «O acto de pensar incomoda como andar à chuva».
Ao contrário destas posturas, na formação de cidadãos, os programas nas escolas estão direccionados para fomentar nos alunos o espírito crítico, permitindo uma formação capaz para enfrentar as demais confrontações sociais, políticas, económicas, religiosas. Mais do que um aluno com a média de vinte valores, o seu sentido crítico sobre as coisas é o que lhe permite ser o melhor entre os melhores, porque só isso serve num mundo em que as barreiras são constantes e a inteligência o único caminho para as ultrapassar.
O acto de pensar é uma faculdade excelente. Pensar, raciocinar, reflectir, imaginar, meditar, matutar… coabitam sem atropelos numa sinonímia vasta e permitem aumentar as capacidades intelectuais ao ‘ser’ em formação constante. Todos somos livres enquanto pensarmos, porque o pensamento é livre. Cortem-nos as pernas, mutilem-nos as mãos, fustiguem-nos as costas, difamem as pessoas, mas nunca conseguirão tirar o pensamento, porque esse é pertença de cada pessoa e cada pessoa será tão grande quanto maior for o seu pensamento.
Pedro Miguel Sousa
in Jornal Povo de Fafe (18-11-2011)

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