sábado, 22 de setembro de 2012

Os nossos vizinhos… não terão razão?


            Não basta andar de cravo ao peito no dia 25 de Abril de cada ano. A democracia foi consequência de vários anos de sufoco e a liberdade de expressão é contemplada em documento próprio, devidamente aprovado e assinado pelas altas patentes do Estado Português.
            Recentemente, o artigo “Os nossos vizinhos: Fafe” de Nuno Rocha Vieira, vimaranense, criou uma enorme onda de contestação, em certos casos, a rossar a malcriadez e brejeirice. Se o objetivo do articulista fosse atribuir estatuto de ‘gente rude’, poder-se-ia afirmar que tinha conseguido, basta ver alguns comentários. Contudo, independentemente do que se possa pensar e dizer, não vi o artigo como uma provocação cerrada, mas como um alerta, visto que permite perceber a imagem que têm da minha cidade.
            Fafe é grande em Fafe. Seria a conclusão mais rápida que se podia tirar de toda esta confusão de palavras. Por muito que se brinque aos rallies ou ao ciclismo, isto só acontece uma vez no ano. Será que é assim tão difícil perceber que só o facto de passear pelas ruas de Guimarães é agradável? Sabem porquê? É muito simples: eles preservam o património e dão-lhe vida! Fafe, bem pelo contrário, faz muito alarido em torno das construções dos brasileiros, fruto do trabalho de um estudioso persistente, Miguel Monteiro, mas na primeira oportunidade autoriza que se derrube um edifício para dar lugar a um mamarracho de vários andares, basta aparecer uma construtora que considere que dava um bom prédio naquele sítio.
            Isto é cultura? Com tanto espaço para crescer, há mesmo necessidade de destruir a identidade? Não seria muito mais inteligente recuperar os edifícios para espaços comerciais ou escritórios?
            No meio de tudo isto, o texto que mais me cativou não foi o do articulista vimaranense mas o de Leonor Castro. A classe com que construiu o seu texto foi muito perspicaz, inteligente, direta. Não disse apenas que o vimaranense não conhece bem Fafe, mas demonstrou através de excelentes exemplos que se conhecesse teria muitas mais observações a fazer.
            Agora, sem ressentimentos e bairrismos, com a maior das naturalidades, imaginem se “os nossos vizinhos” quando vêm a banhos à barragem, como diz o articulista, parassem num dos nossos espaços comerciais para encher a lancheira com umas ‘cervejolas’, um queijinho, fiambre… e o pão caseiro de Fafe? Imaginem também se eles tivessem a hipótese de parar em Fafe para provar a famosa vitela ou, os mais novos principalmente, se imaginassem o quão é saboroso comer o cachorro ou a francesinha no Jorge junto ao Estádio do Fafe? Certamente, não diriam mais que Fafe só tem acessos para a barragem… mas para isso a política precisa de mudar. Nós conhecemos, mais ao menos, o que temos, agora o que realmente é preciso é saber aproveitar recursos naturais e patrimoniais e dar-lhes vida (Animação Cultural e Artística).
            Mas isso não dá trabalho? Dá! Importa é saber se queremos abrir as portas a outros concelhos ou ficar estupidamente sozinhos a armar-nos em ‘fortes, feios e maus’.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (22/09/2012)

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