sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não é fácil trabalhar em Fafe, há demasiadas quezílias políticas

‘O que é em demasia, é um erro’ é uma expressão que só serve o ódio e nunca o amor. Olhar a cidade como um palco em que todos são atores é potenciar nos intervenientes uma dimensão superior. Olhar o outro como alguém que pode surpreender positivamente é uma espécie de conforto para o nosso próprio espírito, mas infelizmente quase sempre há valores ocultos, engendrados por elites mal intencionadas, que procuram derrubar logo quem possa constituir uma ameaça ao seu belo ‘lugar à sombra’.


Há cerca de dois anos, por imperativas forças académicas, participei num seminário, organizado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sobre a temática ‘A cidade como palco’. Neste seminário, constituído por um painel de investigadores portugueses e brasileiros e com a presença de encenadores e atores brasileiros, apercebi-me que ainda temos um trabalho árduo a fazer até conseguir levar a arte às ruas. Envolver as pessoas no mundo artístico vai permitir fazer com que elas reflitam sobre a sua própria condição, sobre os seus valores, direitos e mesmo deveres. Esta forma de transmissão cultural não é bem vista aos olhos dos políticos, que até gostam de ser convidados para as estreias e lá estão na fila da frente a eles reservada para sair na primeira página da comunicação social, mas aceitar que a arte esteja ao alcance de todos nem sempre é o mais confortável. E porquê?
Já imaginaram se todas as pessoas resolvessem pensar por elas próprias? Como é que depois se conseguiria controlar os votinhos? Como é que se podia usar a tática do atraso da licença para que as pessoas tenham de ir ‘por favor’ ao senhor presidente, vereador ou qualquer outro chefe de departamento para dar um jeitinho?
Em Fafe, visível sobretudo nas aldeias, quando surge uma ideia de alguém que se assume com as suas próprias convicções, há a tentativa de fazer com que os outros elementos do grupo se coloquem contra essa ideia. Estas ações, na sua maioria, surgem de elementos externos às próprias associações, mas através da promessa de um emprego ou do tal ‘jeitinho’ lá vão tendo os seus aliados, mas depois, quando já não interessam são descartados como preservativos usados.
Seria injusto se dissesse que não acredito nas ações do atual vereador da cultura, este tem tentado abrir a discussão à comunidade com os fóruns e outras iniciativas que vai realizando, mas isto demora o seu tempo até porque há na comunidade alguma reserva em relação às intenções dos políticos. Contudo, o caminho faz-se caminhando e está na hora de construir ou alargar o plano de intervenção para todo o conselho. A maioria das vezes bastaria ceder as ‘escolas abandonadas’ a associações com projetos bem definidos e não a qualquer uma que só a usa duas horas ao fim-de-semana. E, por falar nisso, serão os presidentes de junta os que se encontram com a melhor preparação para decidir quem deve gerir um espaço cultural ou será o Vereador da Cultura?
As melhores companhias de teatro e outros intervenientes artísticos aparecem quase do nada, talvez em Fafe precise de uma ação deste género para que a porta principal seja depois aberta. Nessa altura, os lugares da frente lá estarão para receber a primeira foto na comunicação social.
Por uma intervenção cultural e artística irreverente!
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (17-02-2011)

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