sexta-feira, 30 de abril de 2010

"O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..." Gandhi

A performance obriga a estudar o comportamento humano numa perspectiva artística ou social, sendo que a postura assumida pode significar uma marca destruidora para a pessoa, embora ela se julgue, naquele momento, o melhor entre os iguais mortais.
Culturalmente, sabemos que a troca constante de posição não é a opção socialmente aceitável, ainda que possa parecer e ter muitas vezes aplausos mediáticos, mas logo se transforma em esquecimento e impede a formação do ser humano de se vincar com atitude e postura. A cultura em Portugal, no meio rural, é o reflexo por excelência da frase de Gandhi «O que mais me impressiona nos fracos é que eles precisam de humilhar os outros para se sentirem fortes…».
Na verdade, as lutas de poder nos meios mais pequenos são medidas através da altura do tom de voz, o que veio substituir a agressão física das feiras ou das tabernas para medir a força. Mas também ainda existe o conceito de ‘taberna’, apenas se alterou o espaço para um meio mais formal, o café, que tem agora o monopólio da exaltação do homem e onde se discute o seu posicionamento perante uma ou outra tomada de posição.
Assim, o café é o local por excelência das zonas rurais, a praça pública, na sua maioria frequentados por homens, que vão mostrando os seus ‘gabaritos’ a pessoas ou grupo de pessoas que consideram mais influentes lá na terrinha. Há mesmo quem utilize este meio para bajular os seus ‘líderes’, ou seja, os cumprimentos são obrigatórios àquela pessoa e de um modo mais delicado e este lá lhe dá os parabéns por esta ou aquela situação, ou seja, uma espécie de ‘padrinho da máfia’.
No meio disto tudo, felizmente, surgem alguns dos mais jovens ou os que sempre pensaram por si e que não estão para estas ‘fidalguias’ dos senhores, nem para estas humilhações, devido ao aumento quer do nível de formação quer do uso liberalizado das novas tecnologias, e agem segundo a sua consciência, seguem os seus próprios ideais.
Deste modo, ainda hoje, em pleno século XXI, há pessoas com comportamentos dúbios em relação à obediência dos senhores. A palavra ‘democracia’ é assumida por eles como uma forma de liberdade, mas é uma liberdade encoberta, disfarçada, porque não conseguem viver sem as orientações dos prevaricadores. Mesmo que estes os incitem a atitudes erróneas, não têm a capacidade de pensar por si, o que é muito grave!
A sociedade portuguesa, apesar de uma mudança lenta, ainda sofre de perturbações senhoriais e, o mais curioso, é que estas são visíveis em indivíduos que ‘enchem o peito’ para falar dos valores e ideais de Abril. São pessoas que têm necessidade da auto-promoção e, ao falarem tanto nos seus feitos, não se apercebem do ridículo em que estão envolvidos muitas das vezes. São, por vezes, desprezadas por um líder, porque não obedeceram a uma ordem, mas voltam a tentar aproximar-se, mas agora como meros objectos no tempo da escravatura, tendo como único consolo a apreciação de um chefe qualquer muito mal formado.
Pedro Miguel Sousa
in Jornal Povo de Fafe (30/04/2010)

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