sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O sistema de marcação de consultas não poderá mesmo mudar?

Mesmo muitos dos que até concordam com o nosso ponto de vista, deixam-se ficar pelo sistema, o mais do mesmo, o sempre igual, por que será? Poder-se-á dizer que este traz benefícios bem mais agradáveis, ou seja, o não mexer? Por que será que não vemos os políticos das freguesias e dos concelhos a tocar com insistência neste tema?
Já todos sabemos que a maior parte dos cidadãos apenas falam do que está mal nas ruas, nos cafés, até dentro dos centros de saúde, mas também sabemos que os livros de reclamação continuam quase intactos e a saúde ainda faz levantar muita gente de madrugada para conseguir uma consulta no respectivo médico de família.
Um dia, num daqueles momentos em que pensava que podia e devia fazer alguma coisa pela sociedade, resolvi confrontar um responsável da saúde com os problemas existentes na questão da marcação de consultas. Embora tivesse usado de toda a educação que a circunstância o obrigava, a reacção do médico às minhas palavras, que descreviam nada mais, nada menos ‘o terrível sufoco que as pessoas passam para conseguir uma simples consulta e se levantavam pela madrugada’, não foram as melhores. Notei desde logo alguma perturbação no seu discurso e, depois de o confrontar, reparei que me tentava convencer que não era bem como eu dizia. Até me pareceu que me queria obrigar a aceitar as suas tomadas de posição.
Enfim, como é óbvio deixei que cada um acreditasse no que quisesse, embora me tenha custado uma confrontação com um responsável de um órgão de informação que não queria que eu abordasse as elites sociais, mas essa não era e nem é a minha forma de ser e de estar na vida, o que me levou a seguir outro rumo. E, se há razões evidentes, por que entrar nos jogos do faz-de-conta?
Hoje, onde encontro um sistema de saúde de excelência (Centro de Saúde de Celas – Coimbra), tenho consulta todos os dias sem marcação para situações agudas e nem preciso ir mais cedo. Até me sinto um privilegiado social. O mais engraçado é que estou a falar num sistema de saúde enquadrado nos mesmos termos daquele que tem pessoas a fazerem fila desde a madrugada, pois é o apelidado SNS/USF – Unidade de Saúde Familiar.
Começamos a ver em muitos locais estas mesmas regalias, que não são mais do que direitos de quem paga os seus impostos, mas ainda há as chamadas ‘Extensões de Saúde’ que parecem teimar em não aderir a este sistema…
Às vezes, apesar de já acreditar pouco naquelas atitudes humanas que atiram a pedra e escondem a mão, ainda me ponho a pensar: «Será que todas as pessoas não deveriam ter o mesmo tratamento que eu tenho?».
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (17/09/2010)

1 comentário:

  1. O problema da necessidade do confronto e das reacções a quem, por imperativos de consciência, preside a necessidade de falar, resultam dos pequeninos poderes de, por obra e graça da nossa pobreza intelectual, ainda teimam em proliferar. São esses pequenos poderes que corroem a paciência e que derivam ,julgo eu, desse enquadramento elitista que as pessoas teimam em fazer. Nunca devemos ficar calados, apesar de, por vezes, acontecer dissabores e aborrecimentos.

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