sexta-feira, 13 de novembro de 2009

«Há aqueles que tentam fugir da pobreza e os que correm para ela»

Numa aula, Joana Laranjeiro, aluna do curso de Design Interiores e Exteriores, comentava o trabalho de uma colega em que a temática era a pobreza. A forma determinada com que iniciara a sua exposição, adivinhavam alguma sustentabilidade, mas a conclusão fora brilhante, retratando com exactidão a sociedade actual: «Há aqueles que tentam fugir da pobreza e os que correm para ela».
A situação complicada da sociedade actual, em questões de emprego, tem sido um desdobrar de forças de forma a conseguir segurar um barco difícil de controlar. Há famílias fortemente fustigadas e, sem olhar a meios, agarram todas as oportunidades para conseguir mais uns ‘trocos’ para sustentar as suas necessidades. Outros, pelo contrário, agradecem fervorosamente a multiplicação de sistemas e grupos de apoio que surgem devido ao aumento da crise.
Um telhadito para a casa, umas paredes pintadas, umas janelas novas, enfim, é enorme a panóplia de ofertas no catálogo de opções de uma acção social que dá a quem não precisa, porque os verdadeiros necessitados têm vergonha de pedir. Há também, nesta altura, a azáfama do cabaz de Natal, que mais uma vez é contemplado por gente que gosta de se apresentar como ‘rica’, mas lá se vão inscrever, não deixando, assim, com que as famílias pobres tenham um Natal ‘apenas um pouco melhor’.
Compreende-se que as inscrições sejam várias, em certos casos, até porque as promessas eleitorais têm de ser pagas, mas ‘o queijo’ não fica mais caro do que um maço de cigarros…
Esta é a nossa sociedade. Esta é a gente que se faz de rica durante o ano, mas espera os produtos das instituições, que recolhem em supermercados… O que nos coloca a questão: valerá a pena dar quando somos solicitados, quando sabemos que esses alimentos não chegam a quem de direito? Ou será melhor pegar num saco de arroz ou de massa e levá-lo a uma família pobre que conhecemos? Pelo menos, a certeza do merecimento é bem mais gratificante.
Como será que as pessoas, sem necessidade, têm coragem de se atropelarem para se inscreverem num cabaz que não lhes pertence? Pelo menos, até porque sabemos que muitos têm-no prometido, esperamos que lhes dêem também uma garrafa de azeite, para que não se engasguem…
in Jornal Povo de Fafe (13/11/2009),
Pedro Miguel Sousa

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