terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Funcionários do Privado têm de trabalhar mais horas e cara alegre

     Não é fácil compreender como é que há uma lei com dois pesos e duas medidas. Considero-me, de todo, um defensor da coisa pública. Sei que foi essa dita coisa pública que democratizou o ensino e fez com que o acesso a milhares de pessoas, tal como eu, pudessem tirar um curso superior. Compreendo que isso seja uma dor de cabeça para os seguidistas do fascismo e herdeiros dos senhores lavradores, mas deixou de chegar a doutor quem era filho do senhor fulaninho e passou a ser uma oportunidade para todos. Isto é igualdade. Isto é democracia. Mas… entristece-me ver que em vez da defesa de direitos iguais, há uns que querem continuar a ser mais iguais do que outros. E ainda mais grave é ver que antes, esses mesmos, não passavam de uns pés descalços.
     O funcionalismo público deve trabalhar 35 horas, até porque era um direito adquirido, mas o setor privado também deve trabalhar as mesmas horas. Não me venham com demagogias dizer que ‘eles têm inveja’ ou que ‘lutem pelos mesmos direitos’. Se os governantes do estado fossem verdadeiros democratas, saberiam que o exercício de funções deveria ser igual e contemplado em código do trabalho. É verdade que muitos, bem à portuguesa, em vez de dizerem ‘também quero os mesmos direitos’, pelo contrário, preferem dizer ‘deviam ficar sem essas regalias’, mas não no meu caso. Isso para mim não é válido, ok? E muito menos, por todas as razões, me consideraria com inveja.
     Mas pensemos em conjunto numa família, por exemplo, de quatro pessoas em que os pais são operários têxteis e ganham o salário mínimo e os filhos são estudantes. E há uma só pessoa, funcionária pública, que recebe mais do que aquele casal. Na família de quatro pessoas, a mãe e os dois filhos precisam de óculos. O funcionário público também precisa de óculos. Quem deveria ter apoio para a aquisição dos óculos. A família de 4 ou aquele que vive sozinho? A resposta parece óbvia, mas quem tem direito aos óculos quase de graça é o funcionário público porque tem um sistema de saúde melhor.
      Eu conheço bem estas situações e só posso dizer que os meus pais são uns heróis. É claro que poderia juntar-me ao ambiente mais confortável e fazer de conta que isso nem é comigo, mas se hoje tenho duas licenciaturas, uma pós-graduação e um mestrado, tenho que agradecer aos dois operários têxteis que me pagaram os óculos desde a terceira classe.

     E nós que até temos cursos superiores devemos deixar que os outros lutem ou antes juntarmo-nos às suas lutas? A maior parte da população está nesta situação. A maior parte das pessoas não sabe como lutar. Se nos foi dada a possibilidade de entrar numa Universidade, muitas vezes com tanto esforço e a privarem-se de tanta coisa, sejamos nós mais humanos e façamos só uma décima parte do que eles um dia fizeram por nós.

 Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Preparados para candidatura a deputados sem direito a subvenções

É preciso ter peninha dos políticos, não é?
A recente polémica das subvenções dos políticos até parecia comédia no início, mas o desenvolvimento da coisa foi mais para a tragicomédia. Os pobrezinhos, obrigados a desempenhar cargos públicos, acham que merecem, depois de 12 anos ao serviço do país, levar com um bruto dum subsídio para a vida toda.
Carrega Portugal. Portugal, dos pequeninos, pois tá claro!
Queixam-se, suas excelências, que o facto de sacrificarem a família é merecedor de compensações. Ai é?
E aqueles que são obrigados a imigrar e só veem as suas famílias de mês a mês ou ano a ano, porque os políticos não conseguem políticas de emprego que garantam a sua permanência com as famílias? E os Professores que têm de ir para qualquer parte do país e nem por isso recebem mais se fossem colocados à porta de casa? Também porque os mesmos políticos nunca conseguiram encontrar um concurso mais eficaz…
Mas acho giro este recurso à dor que os próprios causam nas suas famílias, bem felizes por sinal por eles estarem bem longe lá para Lisboa, pois é garante de um estilo de vida bem mais confortável do que a maioria das pessoas e ainda são tratados com a real vénia campónia. Se estão assim tão sofridos, por que será que não deixam os seus lugares para outros? Por que será que guerreiam entre eles para estarem em lugares elegíveis? Por que não deixam que a renovação aconteça definitivamente?
Antes que me perguntem, parece-me justo que quando chegarem à idade da reforma, também por eles estabelecida em 65 anos, tenham rendimentos de acordo com os seus descontos, mas já considero um absurdo quererem usufruir do dinheiro dos contribuintes – designado pomposamente de subvenções – e continuarem as suas vidinhas como uns verdadeiros Reis na República!
A Carbonária precisa de atuar novamente para derrubar estes tiques Monárquicos. Sem sangue, mas com uma verdadeira luta cultural. Pelos vistos, analisando as atitudes públicas de alguns quadrantes da política, até já está a acontecer e as pessoas estão a gostar…
Acreditando que estes senhores não querem mais nada com a política se acabarem com as subvenções – e porque querem dedicar-se somente às suas famílias, os caros leitores estão disponíveis para servir o país sem direito a essas regalias?

in Jornal Povo de Fafe (29-01-2016)