sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O poder das redes sociais é o maior desespero dos políticos


            A sociedade está em guerra aberta. Se até agora as estruturas governamentais convocavam reuniões para debater e incentivar a atividade cívica e a necessidade da envolvência das pessoas, hoje já deixou de ser uma prioridade, porque as pessoas resolveram definitivamente usar as redes sociais (sites, blogues, facebook, twiter…) e nada nem ninguém consegue bloquear o seu pensamento, as suas observações e indignações.
            A participação direta dos cidadãos, finalmente, é uma realidade. “A fome é má conselheira” e “quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Estes provérbios poderão aplicar-se ao que poderá acontecer se a classe política não arrepiar caminho. Quando falamos de classe política não estamos apenas a referir-nos aos Ministros do Estado Português ou aos deputados da Assembleia da República, estamos a referir-nos a todos, principalmente aos que usam e abusam de pequenos poderes lá na cidade ou na aldeia. Ainda há pessoas que pensam estar no tempo de Salazar e que podem pôr e dispor do estatuto de intocáveis, porque são protegidos pelo clero e pela nobreza, o grande problema é que o povo está a perceber que tem voz e pode usá-la, sem ter de passar por nenhum crivo mal-intencionado.
            Neste preciso momento, a sociedade é um campo minado ou, se preferirem, um barril de pólvora pronto a explodir. Se pretendermos uma sociedade equilibrada e que oriente as suas ações pela racionalidade e harmonia, mesmo em tempo de luta, os governantes necessitam repensar a sua forma de atuar com urgência. O ‘quero, posso e mando’ começa a não ter sentido, até porque a falta de empregos, onde muitos se agarravam para oferecer e/ou chantagear os que pretendiam ter por perto, está a deixar as suas armas sem munições. As autarquias controladoras de empresas, associações e, mesmo muito, da comunicação social têm de alterar a atitude, porque até podem conseguir dominar as direções, mas «há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não». E, esse alguém – hoje pode ser qualquer pessoa, pode ter uma estrutura ainda maior com ele, onde com um simples clique e uma partilha no seu mural consegue mover montanhas e derrubar regimes.
            Ora aí está a participação cívica ou democracia participada.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (28/09/2012)

sábado, 22 de setembro de 2012

Os nossos vizinhos… não terão razão?


            Não basta andar de cravo ao peito no dia 25 de Abril de cada ano. A democracia foi consequência de vários anos de sufoco e a liberdade de expressão é contemplada em documento próprio, devidamente aprovado e assinado pelas altas patentes do Estado Português.
            Recentemente, o artigo “Os nossos vizinhos: Fafe” de Nuno Rocha Vieira, vimaranense, criou uma enorme onda de contestação, em certos casos, a rossar a malcriadez e brejeirice. Se o objetivo do articulista fosse atribuir estatuto de ‘gente rude’, poder-se-ia afirmar que tinha conseguido, basta ver alguns comentários. Contudo, independentemente do que se possa pensar e dizer, não vi o artigo como uma provocação cerrada, mas como um alerta, visto que permite perceber a imagem que têm da minha cidade.
            Fafe é grande em Fafe. Seria a conclusão mais rápida que se podia tirar de toda esta confusão de palavras. Por muito que se brinque aos rallies ou ao ciclismo, isto só acontece uma vez no ano. Será que é assim tão difícil perceber que só o facto de passear pelas ruas de Guimarães é agradável? Sabem porquê? É muito simples: eles preservam o património e dão-lhe vida! Fafe, bem pelo contrário, faz muito alarido em torno das construções dos brasileiros, fruto do trabalho de um estudioso persistente, Miguel Monteiro, mas na primeira oportunidade autoriza que se derrube um edifício para dar lugar a um mamarracho de vários andares, basta aparecer uma construtora que considere que dava um bom prédio naquele sítio.
            Isto é cultura? Com tanto espaço para crescer, há mesmo necessidade de destruir a identidade? Não seria muito mais inteligente recuperar os edifícios para espaços comerciais ou escritórios?
            No meio de tudo isto, o texto que mais me cativou não foi o do articulista vimaranense mas o de Leonor Castro. A classe com que construiu o seu texto foi muito perspicaz, inteligente, direta. Não disse apenas que o vimaranense não conhece bem Fafe, mas demonstrou através de excelentes exemplos que se conhecesse teria muitas mais observações a fazer.
            Agora, sem ressentimentos e bairrismos, com a maior das naturalidades, imaginem se “os nossos vizinhos” quando vêm a banhos à barragem, como diz o articulista, parassem num dos nossos espaços comerciais para encher a lancheira com umas ‘cervejolas’, um queijinho, fiambre… e o pão caseiro de Fafe? Imaginem também se eles tivessem a hipótese de parar em Fafe para provar a famosa vitela ou, os mais novos principalmente, se imaginassem o quão é saboroso comer o cachorro ou a francesinha no Jorge junto ao Estádio do Fafe? Certamente, não diriam mais que Fafe só tem acessos para a barragem… mas para isso a política precisa de mudar. Nós conhecemos, mais ao menos, o que temos, agora o que realmente é preciso é saber aproveitar recursos naturais e patrimoniais e dar-lhes vida (Animação Cultural e Artística).
            Mas isso não dá trabalho? Dá! Importa é saber se queremos abrir as portas a outros concelhos ou ficar estupidamente sozinhos a armar-nos em ‘fortes, feios e maus’.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (22/09/2012)

sábado, 15 de setembro de 2012

Roubar aos pobres para dar aos ricos?


            Não ando à mercê de nenhum partido político e nem tão pouco sou propriedade de ninguém. É certo que tenho as minhas convicções e as minhas orientações político-partidárias, mas não comungo das ideias de todos só porque são do mesmo partido ou da mesma religião. Traçar a minha vida pela cabeça dos outros nunca deu, também não vai ser agora. É certo que não é só a nível nacional que estas coisas se passam, tantas e tantas vezes tive problemas em associações só porque queriam agradar politicamente aos senhores do poder e a minha postura era sempre a mesma: quando estou na associação trabalho para a associação, na política pela política e na vida, sempre, pela cidadania.
            Na terça-feira passada, o PSD colocava uma nota no Facebook onde se via a sua ‘congratulação ao governo devido à avaliação da troika’. Não hesitei em deixar a seguinte nota: «Como se pode estar contente neste momento, ou ‘congratular-se’, se as medidas vêm tirar o pão aos pobres para dar aos ricos? Este não é o PSD de Sá Carneiro. Este não é o defensor de um estado social». Como se pode imaginar, sugiram alguns likes mas também várias cacetadas às minhas palavras, referindo, por exemplo, que a culpa era dos outros que deixaram o País de forma lastimável.
            A culpa é mesmo dos outros, do PS, como também é do PSD e de uma geração inteira de herdeiros de um poder de clausura, um poder salazarista, opressor, mas o poder que deixou livros para estes estudarem. Os grandes culpados têm rosto, são dos dois grandes partidos, os que governaram após o 25 de Abril e conduziram o País para o abismo. A assembleia de República não passa de uma ‘fábrica’ grande com diferentes linhas de produção, mas no fim de cada mês tem de dar salários chorudos aos seus empregados. Dizer mal uns dos outros faz parte do trabalho deles. Aprovar umas leis já depende dos benefícios que daí se poderá tirar ao agradar aos grandes lóbis que lhes pagam as campanhas, dão empregos de gestão (mesmo sem lá aparecerem), tacho para a família… e às vezes até diplomas de curso.
            O país não tem mais solução a não ser que se faça aprovar uma lei que não deixe que os políticos estejam mais do que um mandato na Assembleia da República e todos têm de sair no final, não podendo voltar até que todas as pessoas tenham passado por lá. Na Grécia antiga funcionava assim. Hoje nota-se bem que não é assim, mas em Portugal também não é, vejam a que situação chegou o País.
            Portugal precisa de uma limpeza geral na classe política… toda!
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (14-09-2012)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando os clubes não contratam jogadores da terra…


            Não se trata mesmo de bairrismo. Nem tão pouco qualquer tipo de crítica à gestão de qualquer clube em particular. Trata-se de uma observação muito pessoal, ainda que já sei partilhada por muitos, sobre as aquisições ou contratações dos jovens jogadores do campeonato popular ou regional.
            Longe vão os tempos em que o objetivo dos clubes da regional se prendia com a ideia de dar oportunidade aos jovens da terra onde a associação se encontrava sediada. Orientar e incentivar os jovens para a prática desportiva fazia parte de um plano que os dirigentes, ainda que a maior parte das vezes nem nisso pensassem, procuravam entre aqueles que se propunham treinar dentro das quatro linhas em exercícios de captação de atletas do futebol. O bairrismo era uma característica inerente à situação, porque todos se conheciam, mas era saudável e soberba a ideia de apoiar o clube dos amigos que se cruzavam em diferentes momentos do dia-a-dia (café, escola, igreja…).
            Hoje os valores estão mais virados para outros interesses, muitas vezes pouco transparentes. Levar o nome da terra deixou de ser um objetivo principal e ganhou força o nome individual e, se possível, de um grupo restrito de ‘pseudo-empresários futebolísticos’ que se consideram os melhores porque até ficam em terceiro ou quarto e, se correr menos mal, até podem chegar à final.
            Esta situação é muito fácil de analisar: se um clube deixa de ter dirigentes da terra também deixa de centrar as suas motivações na mesma, ainda que haja a tentativa de alguma aproximação para não parecer muito mal e conseguir uns apoios lá das juntas ou das câmaras locais.
            Os objetivos de um clube do popular ou da regional não são os mesmos dos clubes a disputar o campeonato nacional. Em primeiro estão os jogadores da terra, depois das proximidades e só depois, se já não for possível, é que se deveria recorrer aos mais distantes. Isto permite rentabilizar recursos, dinamizar da mesma forma o clube e contribuir para a prática desportiva dos jovens, incentivando-os a uma vida saudável.
            É claro que há interesses que nos escapam (ou não) em recorrer a jogadores que habitam a centenas de quilómetros, mas isso é outra guerra e isto é apenas uma opinião. Bairrista? Nem por isso, apenas defensor do desporto de proximidade como educação física.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (07-09-2012)