sexta-feira, 27 de maio de 2011

O sentimento de impunidade está a destruir as escolas


‘Ai de tu faltares ao respeito a algum professor ou a algum colega’ é uma expressão que já não se ouve mais. Os jornais mobilizaram esta semana comentadores (psicólogos, psiquiatras, juristas…) para comentar a brutalidade de duas miúdas contra uma colega e outros que filmavam e nada faziam. Mas, isto, é só uma pequena gota no oceano do que se está a passar em todo o país. O sentimento de impunidade, as faltas que só servem para cortar as bolsas e nunca excluir o aluno, a passagem quase obrigatória devido aos requisitos serem tão baixos são algumas das problemáticas que têm de ser revistas com urgência sob pena de estarmos a certificar gente com valores invertidos, não que se ensinem nos programas mas porque muitos nem à escola aparecem e não podem ser retirados porque a idade não o permite.
As escolas já foram alertadas para a nova reestruturação do sistema financeiro por parte do POPH, programa de financiamento, e é bem claro quando refere que a escola não receberá o mesmo se tiver 15 ou 10 alunos. À primeira vista até poderia ser compreensível, se estivéssemos a falar da perspectiva do utilizador pagador, mas o problema é que a escola tem os mesmos encargos com 10 como com os 15 alunos, basta fazer as contas: a luz, a água, o material didáctico, os honorários… Ou seja, para a aula funcionar, há encargos fixos, até pode ser menor nas aulas práticas, porque não vai despender de tanto material, mas são momentos pontuais e nunca na globalidade. Uma outra situação é o funcionamento da turma, porque esta para funcionar precisa de ter no mínimo 15 alunos e quem está por dentro das questões do ensino sabe muito bem que as turmas, principalmente as das novas oportunidades, perdem sempre alunos.
Compreendemos muito bem o que se está a tentar fazer: pressão sobre o ensino e a qualquer custo manter os alunos dentro do sistema de ensino, mesmo que eles faltem muito e tenham resultados péssimos. Mas não é assim que se formam pessoas com capacidades de produzir e, principalmente, com capacidade de ter um comportamento cívico condigno.
O ensino profissional, que antigamente era visto como os cursos frequentados por aqueles que tinham mais dificuldades, ganhou o estatuto de qualidade e é bem notória a sua prestação no mundo do trabalho, isto é, são cursos que valorizam mais a parte profissional como sempre foi o seu objectivo e conseguem ser uma mais-valia e em muitos casos de excelência no mundo empresarial. Os novos cursos de Educação e Formação, que lhe copiam o conceito, estão em muitas das situações além das expectativas, uma vez que têm inúmeras lacunas como já fora retratado atrás.
Para uma melhor prestação no ensino e à sociedade, é urgente uma reestruturação na concepção destes cursos e, mais ainda, na forma de financiamento para que as escola não se vejam obrigadas a tomar medidas que em nada beneficiam a comunidade escolar, mas antes a atiram para o abismo.
A EDUCAÇÃO NÃO PODE TER COMO PRINCIPAL OBJECTIVO A ESTATÍSTICA, MAS SIM A CIDADANIA E O PROFISSIONALISMO!
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (27-05-2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

É preciso sair do conforto para o confronto


Os queixumes são características dos fracos, não dos que têm incapacidades mas dos que as têm e não fazem nada porque ‘parece mal’, ‘não fica bem’ ou ‘não é remunerado’…
A experiência é uma excelente forma de se conseguir contrariar as ordens pré-estabelecidas, muitas delas na desordem. Ninguém faz falta e todos são precisos, principalmente se for para apoiar os nossos desejos e anseios, mas quando não interessam já ninguém os quer por perto porque atrapalham as nossas investidas e os nossos objectivos mais ou menos obscuros. Este é o lema de quem trabalha de forma muito pouco clara, o mais engraçado é que quando descobrem que foram usados voltam para trás, mas muitas vezes já é tarde demais!
Na verdade, nem todos têm o privilégio do ‘filho pródigo’. Quando a ambição é mais alta do que o passo que se pode dar, só há uma saída, a ‘queda’. Também há a história ‘se caíres, levanta-te’, ‘se voltares a cair, levanta-te novamente’, mas se saíres do lado de quem te diz a verdade, toma atenção, porque podes querer voltar e já ninguém quer saber de ti. Mesmo que digas que erraste, o mal está feito e nem todos querem ou têm a capacidade de perdoar setenta vezes sete.
É tão agradável dizer a verdade! Nem sempre é o caminho mais fácil, pelo contrário, muitas das vezes era melhor dizer umas mentirinhas só para enganar e depois logo se via o que ia dar, mas se fizéssemos isso estávamos a ser como tantos outros, o melhor é mesmo dizer a verdade e depois, mesmo que se revoltem contra o que dissemos, é só esperar, dar tempo ao tempo, a verdade aparece e voltamos a ser os heróis… voltamos a estar em grande, porque o que dizíamos afinal estava certo e começam as ‘mil e uma’ justificações e pedidos de desculpa.
É tão agradável conseguir ver mais à frente!
Contudo, este conselho não pode ser para toda a gente, porque é preciso estofo para aguentar as adversidades da vida. Também não pode ser para aqueles que dependem de determinados cargos para viver, porque podem pôr em risco o alimento dos filhos e o seu, mas pode ser para pessoas que só dependem do seu potencial e não estão reféns de nenhuma corrupçãozinha manhosa para estar dependentes de indivíduos mal intencionados.
Se queremos conseguir melhores serviços na educação, saúde, cultura, infra-estruturas… ter empregos que à partida são sempre para os mesmos… temos de sair do conforto dos sofás e confrontar as distintas realidades, porque só assim se consegue um conforto colectivo.
Mas, se estiverem à espera que os outros o façam por si, então é melhor conformar-se, porque os outros, que nunca quiseram nada senão igualdade, têm objectivos diferentes e já têm cargos melhores do que aquilo que vocês cobiçam.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (20-05-2011)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A queima das fitas espelha o país


Num país em crise com eleições à porta, não podia faltar a sátira política na Queima das Fitas de Coimbra. Apesar de um momento de grande aflição para as famílias portuguesas, Coimbra continua a receber milhares de forasteiros que ano após ano se deslocam para ver passar mais um cortejo, que envolve todos os presentes, criando um ambiente de cumplicidade quer nos estudantes quer nas famílias ou simplesmente espectadores.
Apesar de todos os excessos cometidos, alguns até perigosos, seleccionamos este tema para tentar construir algumas confrontações com a vida no seu dia-a-dia, sendo o local escolhido Coimbra, não só porque é o que temos maior conhecimento, mas também porque o nosso jornal fora credenciado para acompanhar as suas festividades. ‘Deolinda, Editors, Marcelo D2, Quim Barreiros, David Fonseca, Diabo na Cruz, Yolanda, The Gift, James’ foram alguns dos espectáculos que passaram no palco principal do Queimódromo no Parque da Canção. Embora nem todos sejam de nacionalidade portuguesa, o certo é que este ano o cartaz da Queima das Fitas em Coimbra mereceu uma atenção especial para as bandas de língua oficial portuguesa, o que pode ser mais uma aposta certeira na projecção que isto pode ter no panorama nacional, uma vez que está a acompanhar a formação de um novo público, mas também no panorama internacional, visto que a academia acolhe centenas de estudantes de outras partes do mundo.
Se este país está a atravessar um momento complicado, não se pode baixar os braços mas deve-se apostar numa internacionalização do próprio país, que passa por uma reestruturação na forma de ser e de estar, podendo, deste modo, conseguir captar mais turistas que procuram, num local tão pequeno, um conjunto de ofertas tão variado e de qualidade. Talvez, pensamos nós, seria muito bom que todas as autarquias deste país pensassem numa aposta concreta no que têm de melhor, antes que alguém pergunte – não se trata apenas de queima das fitas, mas de tudo aquilo que possa representar a qualidade de uma determinada região e se torne uma marca localizada. Para isso, os detentores do poder têm de ter duas coisas: conhecimento e humildade. Conhecimento que as coisas existem e com capacidades reconhecidas, humildade para ir buscar os melhores e não os que trazem mais votos políticos, até porque no geral todos sabemos que em questões de cultura e arte, não são os que levam autocarros, porque são muitos, aqueles que melhor capacidade artística apresentam.
Para sermos mais claros, há mesmo muito a fazer nas áreas da cultura, das artes e do turismo para promover qualquer concelho, e já nem falamos na indústria, mas nunca se conseguirá obter um mérito reconhecido enquanto se fechar dentro de quatro paredes. Enquanto isso não acontece, vai-nos valendo quem já despertou e saiu do conforto do ar condicionado para oferecer os melhores momentos.
Retomando o assunto inicial e o flagelo das famílias portuguesas, é muito preocupante o que já está a acontecer com o abandono daqueles que não conseguem pagar a sua permanência no ensino superior. O estado recolhe os nossos impostos, disso não nos livra, por isso tem de o saber devolver àqueles que por mérito entram nas Universidades ou Politécnicos deste país, porque se não o fizerem estarão a contribuir para uma sociedade em que só os filhos dos senhores fulaninhos é que podem estudar. Isto era o que acontecia no tempo do fascismo, ‘filhos de pobres não estudavam e muitos dos filhos dos ricos eram levados ao colo’. Esperamos que seja apenas uma passagem infeliz dos nossos (des)governantes e que as festas estudantis continuem a ser a alegria de que Portugal tanto precisa.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (13-05-2011)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Abençoada TROIKA, por que tardaste?


VENI, VIDI, VICIT
‘Cheguei, vi e venci’! Poderia ser este o lema da TROIKA, mas também poderia ser outro qualquer que indicasse uma atitude forte no que respeita às negociações. Se o medo estava instalado, as conclusões, que só se irão notar quando postas em prática, parecem trazer uma lufada de ar fresco ao país. Não se deve confundir o país e os políticos, porque a estes foi passado um atestado de incompetência, não porque não se entenderam mas porque sempre se entenderam de mais!
Com as medidas anunciadas, ao contrário do que vinha a anunciar o Primeiro-ministro demissionário, para quem o mundo é sempre cor-de-rosa, apercebe-se que a reestruturação de autarquias merecerá um decréscimo de funcionários, haverá a necessidade de várias privatizações e, de tanto agrado, a justiça será colocada no lugar. Na verdade, quem não sabia que as administrações autárquicas tinham gente a mais? Quem não sabia o que se passa com a Justiça em Portugal? Quem tem dúvidas das gestões feitas pelas empresas públicas e das apetecíveis regalias?
A TROIKA ‘chegou, viu e venceu’, porque precisávamos mesmo deles, porque não estávamos mesmo nada bem, porque eles têm dinheiro para emprestar e nós temos que acatar as suas regras. Se observarmos bem, nada mais é do que um empréstimo que nos obriga a ter encargos obrigatórios.
Com as eleições à porta, com a casa já planeada, esperamos que o novo governo seja muito mais inteligente na sua construção. Está na altura de um verdadeiro entendimento, nunca uma ‘unidade nacional’, porque essa já existiu e continua a existir entre os dois grandes partidos que combinam os lugares que cada um vai ocupar. É uma espécie de «não me faças mal enquanto governas porque a seguir vou para lá eu…». Este é o grande problema da sociedade portuguesa, ser demasiado bipolar. Seria importante que os partidos mais à esquerda ou mais à direita tivessem maior representatividade, pois obrigaria a uma constante negociação e, deste modo, os governantes não poderiam ser arrogantes.
Deste modo, esperamos que Portugal ‘ganhe juízo’ e que o próximo governo saiba acolher mais do que um ou dois partidos na governação. É preciso alargar a participação de todos os portugueses e isso só se consegue com a envolvência de ideias diferentes para tornar um país mais competitivo e com excelente aceitação no mercado internacional.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (06-05-2011)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

“Limites da des-figuração”

A figura humana é posta à prova desde os primeiros momentos da tomada de consciência pelas criaturas. A descoberta do novo, causada pelo estranhamento, leva a uma procura constante das mais distintas funcionalidades de um membro corporal, um estímulo, uma sensação, um gosto, isto é, a tomada de consciência das variadas potencialidades distribuídas por um só corpo e formando uma só pessoa.
Numa exposição individual, a apresentar amanhã (30 de Abril) na Galeria de São Mamede no Porto, o Escultor Pedro Figueiredo questiona a construção humana ou, talvez, atribui-lhe o verdadeiro significado que tantas vezes nos parece utópico à luz da “des-igualdade” social. Pedro Figueiredo, em diversas peças desta exposição que ilustramos na peça ‘Instante’ reflecte o sentimento bíblico da união numa só carne. Os membros unidos dão origem a dois troncos, representando o Homem e a Mulher, o mesmo Homem e a mesma Mulher, os dois num só corpo, numa só alma, num só espírito. Eis a transformação anunciada, eis o momento tão desejado para a espécie humana.
No catálogo que servirá de elemento auxiliador a esta exposição, Pedro Pita, Professor da Universidade de Coimbra e actual Director Regional da Cultura do Centro, que escreve o texto de apresentação, refere que «Vistas em conjunto – ou melhor: circulando no espaço poético ou espectral definido por qualquer conjunto destas peças – fui ganho pelo sentimento de que estamos perante personagens de uma história enigmática, subterrânea, fantástica, onde não há olhares nem proporções porque é a um outro plano que a figuração desfigurativa de Pedro Figueiredo nos faz aceder.».
Ainda que possamos concordar com estas linhas orientadoras, a nossa imaginação leva-nos para um mesmo mundo fantástico, mas um mundo mais próximo do divino. Um mundo que se conjuga no ‘ser’ e no ‘existir’, a verdadeira existência humana, a procura constante de um equilíbrio num mundo desequilibrado. Se a exposição se intitula “Limites da des-figuração”, diríamos que os limites nada mais são do que o encontro da perfeição conjugados num mesmo tempo e num mesmo espaço, ainda não atingido na sua plenitude, mas que procura apontar como saída única num caminho desfigurado, tortuoso, mas possível de alcançar.
As peças apresentadas nesta exposição são na sua maioria em resina de poliéster, o que é mais usual neste artista plástico, mas são apresentadas também algumas em bronze. Pedro Figueiredo, natural da Guarda, licenciou-se em Escultura na Escola Universitária das Artes de Coimbra, onde viria também a concluir mais tarde o Mestrado em Comunicação Estética. Com participações em diversas exposições individuais e colectivas, destaca-se o Prémio Revelação da XII Bienal de Vila Nova de Cerveira, sendo este ano de 2011 artista convidado. Para além da sua exposição individual “Des-figuração”, que estará presente na Galeria SÃO MAMEDE a partir de amanhã, algumas das suas obras podem ser consultadas nas suas páginas www.pedrofigueiredo.pt ou http://pedrocfigueiredo.blogspot.com.
Pedro Miguel Sousa, in Caderno Cultural do Jornal Povo de Fafe (29-04-2011)


Quem foi mais ditador: Salazar ou os que se apoderaram do poder depois dele?


Quantos são os Presidentes que ocupam o cargo político anos e anos a fio? Certamente com o voto do povo, o que lhes dá legitimidade, mas no período do Salazar também votavam, nas listas salazaristas. Será que agora é diferente? Em certos sítios sim, mas noutros não, pois todos sabemos o que esses defensores de fachada fazem para controlar os votos: controlam as instituições, jogam com as licenças para construção, os empregos…
Até há aqueles que dizem, ‘andam as instituições a fazer o mesmo, só porque se zangam’, será? Ou será que muitas das zangas são conseguidas pela tentativa de controlo de certas políticas medíocres? «Se a associação tem um presidente que nos apoia, nós damos dinheiro, se não tem, não damos!». Este é o verdadeiro lema dos que herdaram os livros do senhor de Santa Comba Dão! Conhecemos associações que tentam controlar o que se diz, porque não se pode dizer nada que ofenda os senhores da política, mesmo que façam mal… claro está, se queremos liberdade, temos que abandonar as ditaduras e formar associações onde impere a democracia. E, para que fique bem claro, nem todas as associações estão dependentes das esmolas camarárias!
Era o que mais faltava, trabalhar de graça (voluntariado) e por cima ter que estar calados para não desagradar aos senhores fulaninhos das autarquias deste país. Muitos deles reformados com altos salários e, até há poucos meses, que acumulavam com outros salários tão ou mais chorudos. Este foi o grande problema do país, ‘ser governado por reformados de luxo’ que se fizessem obra ganhavam, mas se não fizessem ninguém lhes tirava o rendimento!
Envergonhem-se desses actos! Envergonhem-se de usar cravo ao peito! Envergonhem-se de tentar controlar o associativismo e que se envergonhem também os que entram nos vossos jogos. A vossa máscara está prestes a cair. Não adianta fazer mais joguinhos de sedução para controlar as instituições, porque esse tempo está a acabar. A resposta vai chegar e, pelos vistos, mais depressa do que estes senhores da tanga democrática estavam à espera. As instituições só se deixam embarcar nessas fraudes se os seus dirigentes forem fracos, porque não serão mais as actividades de fachada, só para sair nos jornais e justificar o tacho de mais um boy, que convencem a geração que vem aí e com altos níveis de formação.
A sociedade vai mesmo mudar, não haja mais dúvida alguma disso. A geração rasca vai mostrar que não é assim que se faz política e nunca será dessa maneira que o mundo evolui. Os que mudaram de casaca não terão mais aceitação nos seus partidos iniciais, porque são tidos como traidores, e os que se julgam superiores vão ser desterrados para o deserto, onde podem mandar sobre as pedras mortas, porque as suas ideias não mais valerão, nem serão tomadas como credíveis.
VIVA A DEMOCRACIA, VIVA A LIBERDADE, VIVA O NOVO 25 DE ABRIL, VIVA O 12 DE MARÇO DE 2011, PORQUE TODOS SOMOS ‘GERAÇÃO À RASCA’.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (29-04-2011)