sexta-feira, 15 de abril de 2011

“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. (...)"


“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro”.
Otelo Saraiva de Carvalho, Jornal Público, 13-04-2011
O 25 de Abril está a chegar e com ele as reacções a mais um ano após 1974. Data que tem sido sistematicamente comemorada, mas ao que tudo indica este ano não o será na Assembleia da República. Ainda que esta esteja dissolvida, não ficaria mau uma passagem pelo local que durante estes anos todos decidiu o rumo deste país. Embora se compreenda que os deputados estejam ‘demitidos’, não custava nada ir até Lisboa e comemorar o dia da revolução dos cravos. Como a vida não está fácil, não daria para um alto banquete mas, como somos portugueses, não seria muito difícil preparar um farnelzinho com produtos da região de cada deputado, e partilhar como irmãos que comem do mesmo tacho nos belos jardins de S. Bento. Vejam bem, ainda permitiria que estes alimentos fossem saboreados e todos, agora no desemprego, criassem uma empresa de comércio de produtos regionais, a economia começava a subir e com qualidade, porque «O que é nacional é bom».
Apesar desta brilhante iniciativa, se acontecesse, a verdade é que o espírito não seria o mesmo. Afinal, os senhores estão demitidos das suas funções, certamente às portas dos Centros de Emprego como tantos milhares, disfarçados para não serem reconhecidos, porque podem ser apupados se descobrem que também contribuíram para esta situação. Se a ‘Geração Rasca’ conseguiu destacar-se, numa manifestação pacífica, abrangendo gentes de todas as gerações, significa que os nossos políticos foram uns grandes falhados, mas com palavras como as de Otelo Saraiva de Carvalho as coisas mudam de figura, pois é a machadada final nestes políticos rascas que atiraram as nossas vidas para um buraco sem fundo. Otelo fala nas desigualdades sociais, na discrepância de ordenados existente entre os gestores públicos e os que se levantam às cinco da manhã todos os dias e ganham uma ‘miséria de ordenado’. Nós, porque também defendemos estes mesmos ideais, falamos de todos aqueles que provenientes de famílias pobres ou remediadas se aproveitaram do 25 de Abril para nunca deixar o poder, mesmo que as suas ideias já nada servissem a população. Falamos de todos aqueles que se reformaram da política e usufruem de ordenados chorudos, porque ainda são novos para a verdadeira reforma. Falamos de todos que precisavam que viesse um carro de Lisboa para os levar do Porto a Braga e voltar para Lisboa, porque eram senhores da política e não podiam ir de comboio, não tinha sentido de estado.
Enfim, foram erros a mais num país tão pequeno. Foi viver mais do que as possibilidades, por isso, agora nós, porque somos todos iguais, ajudaremos a pagar a factura. Quando se penduravam nas gravatas achavam-se superiores, mas quando se extinguiu o fundo já nos consideram todos iguais… Contudo, não sei se tenho mais pena do país ou das pessoas. Sabem porquê? É que o país, de uma ou outra forma, vai continuar a ter ricos e pobres, viver de aparências ou ilusões, com fome ou farto, mas as pessoas não vêem isso, muito pelo contrário, há mesmo muita gente tão mal formada que deixa que estes abusos aconteçam sucessivamente. Uns dizem que podem precisar deles, outros têm medo, a maioria porque não sabe mais e, enquanto isto acontecer, há aqueles também pobres coitados - mas mais espertos do que os seus semelhantes - que se vão aproveitando e conseguindo os melhores tachitos, por isso, que não se magoe ninguém e se quiserem abrir as pestaninhas abram, mas se não quiserem não digam que não avisamos.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (15-04-2011)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

«Aqueles que um dia nos quiseram mal, se pensam que lhes vamos pagar com a mesma moeda, estão muito enganados. Não gastamos assim o nosso dinheiro!»


A sociedade tem destas coisas. Muitas das vezes, independentemente do posto ou estatuto, o indivíduo sente uma enorme vontade de se insurgir contra todos aqueles que de uma ou outra forma se lhes atravessaram pelo caminho, apenas com um único objectivo – afastar do seu caminho para conseguir o seu lugar, mesmo que para isso seja preciso ‘apunhalar pelas costas'. Ainda que o poder instalado seja o melhor auxílio para que estas manobras tenham sucesso, o certo é que ‘a mentira tem perna curta’ e ‘a verdade tarda, mas não falha’.
As comunidades mais pequenas, onde a ruralidade insiste em reinar em espíritos maléficos, são caracterizadas pelas frases conhecidas ‘toda a gente sabe a vida de toda a gente’ ou, porque a gabarolice é arma dos mais fracos, ‘o senhor fulano bateu-me com a mão nas costas’ e, ainda, ‘fui chamado ao gabinete do senhor cicraninho’. Eis uma imagem perfeita de um país atrasado, mas que se impõe ‘erecticamente’, pendurando num corpo semi-novo um fato e gravata.
A sociedade portuguesa começa a despertar consciências aos mais distintos níveis. Os boys continuam à sombra, os fulaninhos estatelados, mas os cicraninhos começam a ficar assombrados. O prior já não é o mais importante e o doutor o mais destacado, porque todos puderam crescer e a educação generalizada dita um rumo novo aos mesmos de sempre remediados.
Apesar de toda esta crise económica que vivemos, que leva à insistência em não recorrer a ajuda ainda que a fome esteja instalada, a crise pior é a falta de escrúpulos de uma sociedade que sempre viveu de aparências, em que os mais destacados se serviam da pouca ou nenhuma formação dos outros para lhes tolher os sentidos e motivar com umas palavras delicodoces.
Infeliz daquele que vive sobre as ordens dos outros, sem que estas sejam tomadas suas; infeliz daquele que se julga um deus, porque não passa de um pobre coitado; infeliz daquele que se julga superior, porque não é mais do que manipulado; infeliz daquele que usa a sua posição para mandar, porque um dia será julgado.
No Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente já nos retratava esta mesma sociedade, utilizando o riso para a caracterizar, «ridendo castigat mores – a rir se castigam os costumes». Todas as personagens que se vão apresentando naquele cais de embarque pretendem partir na mais apetecível, a barca do purgatório, mas nem o padre, que se fazia acompanhar de «ûa moça», consegue tal viagem. É o parvo, aquele que dizia asneirada atrás de asneirada, o merecedor de tal lugar.
Por tudo isto, se Gil Vicente já dizia isto e, depois de tanto tempo, os costumes continuam inalteráveis, só uma frase se pode dizer: «Bem-aventurados sejam os pobres, porque deles é o reino dos céus».
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (08-04-2011)

sábado, 2 de abril de 2011

O FMI pode descobrir os podres dos governantes


O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem sido retratado como um bicho muito mau que pode colocar a vida das pessoas numa desgraça. Mas será que a vida das pessoas já não está difícil? É certo que recorrer a ajuda não é bom sinal, mas será que o FMI é assim tão mau ou será que pode descobrir o buraco para onde foi sendo atirado o dinheiro dos nossos impostos e, por isso, alguns governantes lhe têm tanto medo?
Já que todos temos a mania de nos agarrar a memórias e mitos, gostaria de relembrar aquele a quem todos temiam que ninguém se atrevia a passar por ele, o Adamastor. O mito foi perdurando até que um povo, guerreiro e destemido, que já tinha conquistado a terra e se virara para o mar, resolveu enfrentá-lo. Esse herói chamava-se ‘POVO PORTUGUÊS’.
O Eng. Sócrates Pinto de Sousa, Primeiro-ministro de Portugal demissionário, tem muito medo a este adamastor, não sabemos o porquê, mas sabemos que se tem medo não pode continuar a ser o timoneiro de um barco que está no meio da tempestade. É verdade que o FMI baixou o salário mínimo na Irlanda, mas tomáramos nós viver com o actual salário mínimo da Irlanda agora!
O que nos apraz registar sobre o FMI não é o considerar que esta seja uma solução desejável, mas é melhor que venha antes que isto se afunde de vez. Os nossos governantes já deram prova que não sabem gerir os nossos impostos, por isso vamos lá contratar alguém, ainda que lhes paguemos mais, para que possam retomar este país que já vinha assumindo PEC atrás de PEC e nada garantia que ficaríamos só pelo quarto.
A preocupação, que agora estamos a assistir destes (des)governantes, não é propriamente pelo país, mas pelos lugares à sombra que estes senhores se foram habituando e nós culpados por alimentar estes mesmos sítios. Como qualquer pessoa que deixa de produzir para o seu sustento, Portugal fez o mesmo. Hoje não temos agricultura, hoje não aproveitamos o mar, hoje estamos falidos.
No entanto, continuamos com terra e com mar, embora nem sabemos cultivar nem pescar, mas temos formação em gestão, marketing, letras, saúde… só precisamos de chamar os nossos pais para nos ensinarem a plantar umas batatas, umas couves e outros alimentos para que possamos juntar a sabedoria da terra e do mar com a formação que tivemos, talvez assim a economia portuguesa volte a crescer.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (01-04-2011)

sábado, 26 de março de 2011

E se Portugal comprasse mais frota marítima em vez do TGV?


Não neste momento, obviamente!
As grandes obras ou investimentos em Portugal têm dado sempre muito que falar. Se não se compra é porque não temos missão, se se compra é um desperdício dos nossos impostos. Esta é a norma que nos oferece observar um país de costumes pouco determinados que mais não tem do que memórias de um passado promissor. Mas, por falar nisso, até quando?
Os estádios deviam ser cinco, mas lá construíram dez. Os submarinos não eram precisos, mas toca a comprá-los. O TGV não é mesmo preciso, mas vai ter de ser…
Se em tempos pensava que tudo poderia ser má gestão, e continuo a pensar, hoje olho de forma diferente para estas apostas. Neste momento, a situação do país não suporta o TGV, por isso, deve ser adiada a sua aquisição. No caso dos estádios, está mais que provado que não precisávamos mesmo de tantos estádios, mas já que estão é preciso rentabilizá-los, quanto mais não seja com espectáculos e outras actividades lúdicas e desportivas. Os submarinos, ainda que tenha e vá permitir mais conversas, deviam ser assumidos como uma mais-valia definitiva e conquistar novamente o que é nosso por direito, ou seja, o belo mar português.
Somos um povo conquistador nas memórias, talvez seja essa a nossa desgraça, que viu para lá da linha do horizonte e começou por plantar um pinhal (Pinhal de Leiria) para que este servisse para construir as naus das descobertas, será assim tão difícil perceber que a nossa salvação passa por produzir em terra e levar além-mar? Será tão difícil perceber que os próprios submarinos podem ser úteis para explorar o nosso mar, que é mais extenso do que o território terrestre português? Será que não existe um ‘pocinho’ de petróleo nesta imensidão de água?
Na verdade, nem do território continental sabem tirar proveito, quanto mais do mar!
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (26-03-2011)

sexta-feira, 18 de março de 2011

‘Sou da Geração…’


… que não podia esperar muito mais do que o que se está a passar neste momento!
Milhares de pessoas, de idades muito diferentes, marcaram as principais praças deste país, desfilando pacificamente contra políticas que teimam em nada nos beneficiar. Desta vez, o que merece maior aplauso, não havia qualquer organização política a comandar as tropas, apenas a força e determinação de quatro jovens que já marcaram a história deste país com a sua astúcia e perspicácia.
Neste momento, depois de tantos comentários sobre o que realmente se passou, é chegada a hora de questionar o que realmente se está a passar e o que se deve fazer para alterar o rumo péssimo para o qual caminhamos. Não serão mais os milhares de pessoas que saíram à rua o tema principal de discussão, mas sim o encontrar de soluções para que estes e os outros todos não precisem de voltar a fazer o mesmo.
«Geração à rasca – a nossa culpa», um tema publicado no blog ‘Assobio Rebelde’ (http://assobiorebelde.blogspot.com), o seu autor, que assume responsabilidades, dá conta dos erros continuados e que provocaram esta crise. Entre muitas outras situações destacamos duas fundamentais: na primeira – fala do tipo de vida que os jovens levam, uma vida que a maioria das pessoas foi privada na sua juventude, mas conseguiu dar isso aos seus filhos como um curso superior, o primeiro carro e dinheiro no bolso para os concertos e outras extravagâncias; a segunda – refere-se directamente à responsabilização com a falta de educação e formação que não souberam dar.
Estas são palavras sábias, retrato de um país com exactidão. A culpa tem de ser de alguém, se bem que não é mais essa que interessa mas sim a resolução dos problemas. Nós, a geração rasca agora à rasca, fomos mesmo uns privilegiados. Pudemos estudar nas melhores Universidades deste país, tivemos sempre a carteira dos nossos pais para nos proteger e nunca nos faltou uma camisa lavada ou umas calças novas para sair ao lado dos meninos mais ricos. Nós, geração à rasca, somos apenas vítimas do esbanjamento! Estamos todos à rasca, mesmo todos e de todas as idades. A crise não é só para a nossa geração, até porque nós teremos um futuro mais promissor, uma vez que os nossos pais apostaram na nossa formação, mas o mesmo não poderão dizer os mais velhos que viveram momentos de loucuras e ilusões e os empregos também não chegam para eles. O país está em crise em todos os níveis.
Referimos e sublinhamos, novamente, a palavra ‘crise’. Não adianta mais um Primeiro-Ministro vir dizer que ‘se a Assembleia da República não aprovar o PEC 4, entraremos em crise política’, pois essa já está instalada e Sócrates é o principal responsável. Terá de ser responsabilizado por isso. A sua atitude de ´vítima´ já enoja! O que ainda não se conhece mesmo são as razões que irão levar a este PEC 4, quando os governantes diziam que não seria necessário mais nenhum, o que estará a esconder o Primeiro-Ministro?
Num dos comentários do Fecebook, alguém dava conta desta enormidade do governo em deixar o desporto dos ricos (Golf) a 6%. E, mais uma vez, perguntamos: É este o senhor da esquerda? É isto o socialismo? É este que defende o estado social? (Todos sabemos que não, apenas alguns o podem afirmar!) Pelo contrário, é este indivíduo que penaliza as famílias mais necessitadas ao retirar-lhes o abono, é este senhor que não tem escrúpulos e pinta um país de cor-de-rosa quando todas as outras instituições internacionais e até nacionais dizem que a situação é gravíssima.
Se ainda queremos acreditar neste país, vamos apostar novamente numa formação/educação sólida. Devolver à Escola a sua responsabilidade social, que implica todos os sectores sem excepção, e fazer com que esta forme homens e mulheres com qualidades que mereçam um país à imagem e semelhança de iguais capacidades.
Numa perspectiva de melhoria de um país, será necessário uma justiça social que obriga à liberdade de expressão, isto faz parte da referida educação, por isso, neste momento, importa aqui deixar as felicitações ao ‘POVO DE FAFE’, que ao seu jeito vai contribuindo para uma comunidade de língua e expressão portuguesa mais informada e permite a confrontação de ideias nos seus comentários de opinião. Importa também reforçar o seu papel e a sua missão enquanto órgão de comunicação social local, uma vez que são os únicos instrumentos que registam os acontecimentos locais com maior proximidade, ainda que estes devessem ser muitas vezes explorados de diferentes pontos de vista, o que significa registar a história de um Povo que é o Povo de Fafe.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (18-03-2011)