sábado, 5 de fevereiro de 2011

E se Fafe tivesse…



… uma feira quinzenal ou mensal no Multiusos?
Numa recente recolha para uma próxima publicação da revista ‘alfa’, revista do CLUB ALFA, fiquei com a sensação que muito mais se poderia fazer por um concelho que me parece rico em criatividade e pobre na exploração dos seus recursos. Ainda que me pareça que a minha ideia tenha a necessidade de algum amadurecimento, principalmente no que se refere à confrontação com questões de ordem logística, o certo é que a cidade precisa de mais acção, envolver os seus munícipes e atrair mais visitantes.
O Plano de intervenção em nada se oferece complicado, ou seja, trata-se simplesmente na abertura do Multiusos para acolher exposição e venda de produtos artesanais, que podem ser elaborados por pessoas individuais ou através das associações. À primeira vista, não é mais do que promover a mostra das associações que já vem acontecendo uma vez por ano. Contudo, esta actividade, se fosse devidamente coordenada, não se fixava no ponto de venda, mas sim no pré, durante e pós execução, o que implicaria um acompanhamento, promoção e divulgação, através de locais próprios para a construção e, possivelmente, colaboração no encontro de temáticas a abordar em cada momento expositivo.
Se o Multiusos é um local para expor/vender o produto final com capacidade reconhecida, também as Escolas primárias, na sua maioria sem utilidade, representam locais privilegiados para o planeamento e execução dos trabalhos. É certo que estas precisam de coordenadores de grupo, mas para isso existe a vereação da cultura que pode encontrar em cada núcleo de freguesias uma associação com currículo cultural que possa assumir essa responsabilidade ou contratar jovens formados nas áreas de Educação/Artes/Cultura/Turismo.
Se Fafe somos todos, também todos devemos dar o nosso melhor por Fafe.
Às vezes, basta que deixem!
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (04-02-2011)

sábado, 29 de janeiro de 2011

«Servir é a arte suprema. Deus é o primeiro servidor!»


A VIDA É BELA, Um Filme de Roberto Benigni
‘Em democracia não há derrotas. A maior vitória tem de ser o povo.’ Da minha parte convivo muito bem com uma não eleição, mas não admito gente falsa! Em tempos, na minha Faculdade, fui eleito duas vezes para o Conselho Pedagógico e numa outra eleição, para representante dos estagiários, perdi por um voto. E perdi porque um votante em vez de colocar o meu nome (Pedro Sousa) colocou como me tratava (Fafe), logo foi nulo e o resultado, histórico, teve 129 – 128. Não tive problemas em cumprimentá-lo no final. Muito pelo contrário, ambos estávamos a concorrer para representar os nossos colegas e, neste caso, a sua votação fora maior.
Todo este percurso, que considero um tempo muito enriquecedor na minha vida académica, foi muito importante para a minha formação cívica. Desde muito cedo me habituei a lidar com vitórias e derrotas, mas sempre me recusei a viver com a falsidade, o oportunismo e a mentira. Não tenho problemas em cumprimentar um adversário político, porque esse pode ter o mesmo objectivo que eu, em contribuir para o bem comum, mas não consigo de todo acompanhar com aqueles que se aproveitam das circunstâncias para ‘apunhalar’ pelas costas logo que lhes seja oportuno.
Posso dizer que tenho amigos nos vários quadrantes políticos. Amigos mesmo, daqueles que estão connosco sempre, menos na altura da defesa dos respectivos partidos, ainda que às vezes, porque alguns, tal como eu, não se consideram propriedades dos partidos mas sim seus militantes, possamos estar todos do mesmo lado e defender o colectivo. Na verdade, nunca tive problemas em estar com aqueles que sei que defendem um partido ou uma ideia diferente da minha, mas nunca gostei de estar, até os evito, com aqueles que nunca se sabe a sua posição, esses são muito falsos!
Ao verificar tamanha abstenção neste país, penso que é, mais uma vez, oportuno focar a necessidade da renovação da classe política e das ideias vigentes. Estas estão obsoletas e já não servem. É preciso voltar a motivar os mais novos para a cidadania, o uso do seu direito que está no voto e alertar para a necessidade destes se envolverem numa política que merece muito mais do que a que nós já bem conhecemos.
Como diz a célebre frase: «Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem nada façam!», por isso, todos têm de agir, para que a política deixe de ser ocupada por aqueles que se servem dela e passe para aqueles que a querem servir.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (28/01/2011)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

“Diacrítico” de João Rasteiro



«.a arte mais sublime de trespassar a morte é descansar num nevoeiro a arder de sangue. e mastigar a ferocidade das abismadas paisagens com a zoologia aberta do amor. na agonia da pura inocência. olhar o gume da lâmina prateada e amá-la exalando a sua boca atulhada em espaço lírico. no ventre suculento das algas. a renúncia do torpor é apenas a entrega incólume da candura e da vulva viva porque nos incutimos erectos. o fingimento que evoca a mulher sufocada nos ganchos quando o poeta faz de homem sábio. a magnólia cheirando a incesto nas palavras faustosas. cada golpe luminoso é a acutilante pujança das orquídeas negras do nosso próprio eco. a exígua morte.»
in Rasteiro, João, “Diacrítico” (VIII)
JOÃO RASTEIRO, poeta e ensaísta, nascido em Coimbra, apresenta o livro “Diacrítico” com a chancela da Editora Labirinto. A sessão realizar-se-á no dia 4 de Fevereiro (sexta-feira), pelas 18h30, na Casa da Cultura de Coimbra - Sala Sá de Miranda e será apresentada pela Professora Doutora Maria Irene Ramalho da Universidade de Coimbra. Leituras de poemas pelo poeta Jorge Fragoso e uma performance de dança por Cláudia Afonso, enriquecerão o evento.
“Diacrítico”, obra poética, apresenta-se como uma metamorfose da ordem natural das coisas, onde os sentimentos são invadidos por uma perturbação desconcertante no seu significado. Palavras atentas, escolhidas no mar, juntas na areia constroem esta nova natureza, que, na realidade, já não é nova, apenas esclarece uma ordem desordenada. Entre o poeta e a mulher volta o ‘fingimento’, semeado vezes sem conta, colhido por esta humanidade empobrecida, que caminha para a eterna morada.
Em “Diacrítico”, as palavras oscilam ‘entre a espada e a parede’. São palavras que não respiram ao respirar. São vozes que calam sem falar. São mensagens que passam sem um som se notar.
Nas palavras de Albano Martins, no prefácio à obra, «Empurrada por um vento que sopra do deserto, a linguagem carrega consigo algumas pétalas que vai deixando na página em branco. Portadoras dum sentido originário, genesíaco, as palavras abrem sulcos num terreno onde o significado se oferece pleno de potencialidades e sugestões, carimbando de decantada expressão o corpo do poema. Tudo, aqui, é alusão. Tudo é profecia, oráculo, metamorfose. Tudo é, também, delírio.» são as letras, assim, que se juntam nas palavras e ganham forma, conhecem um corpo e lhes permitem comunicar. Esse corpo, ladeado de sentidos contraditórios, ergue-se triunfante e aproxima o divino ao humano e o humano ao divido, como se a transformação fosse um sinal possível e a harmonia reinasse num reino sem trono. Tudo é fantasia. Tudo é ilusão. Tudo é metamorfose.
Biografia
João Rasteiro (Ameal - Coimbra, 1965), poeta e ensaísta, traduziu para o português vários poemas de Harold Alvarado Tenorio, Miro Villar e Juan Carlos Garcia Hoyuelos. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. Trabalha actualmente na “Casa da Escrita” – Câmara Municipal Coimbra. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores e membro dos Conselhos Editoriais das revistas Oficina de Poesia e Confraria do Vento (Brasil). Possui vários poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, Colômbia, Chile e Espanha e possui vários poemas traduzidos para o Espanhol, Italiano, Inglês, Francês e Finlandês. Obteve vários prémios, nomeadamente a “Segnalazione di Merito” do Concurso Internacional Publio Virgilio Marone, Castiglione de Sicilia, Itália, 2003, o 1º Prémio no Concurso de Poesia Cinco Povos Cinco Nações, 2004, o 1º prémio – na categoria de autores estrangeiros – do Premio Poesia, Prosa e Arti Figurative-Il Convívio (Verzella, Itália, 2004) e o Prémio Literário Manuel António Pina (Câmara da Guarda/Assírio & Alvim, 2010). Publicou os seguintes livros: A Respiração das Vértebras, 2001, No Centro do Arco, 2003, Os Cílios Maternos, 2005, O Búzio de Istambul, 2008, Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, 2009, Diacrítico, 2010 e A Divina Pestilência, Assírio & Alvim, 2011. Em 2005 integrou a antologia: “Cânticos da Fronteira/Cánticos de la Frontera (Trilce Ediciones – Salamanca). Em 2007 integrou a antologiaTransnatural”, um projecto multidisciplinar sobre o Jardim Botânico de Coimbra. Em 2008 integrou a antologia e exposição internacional de surrealismo O Reverso do Olhar. Em 2009 integrou a antologia: “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética”, organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva e que engloba poéticas de Portugal, Brasil, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Em 2009 integrou o livro de ensaios “O que é a poesia?”, organizado pelo brasileiro Edson Cruz. Em 2010 integrou a antologia Poesia do Mundo VI, resultante dos VI Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra organizados pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 2009, organizou para a revista ARQUITRAVE da Colômbia, uma antologia de poesia portuguesa, intitulada “A Poesia Portuguesa Hoje”. Mantém em permanente irrupção o sísmico fulgor do blogue: http://www.nocentrodoarco.blogspot.com/
Pedro Miguel Sousa, in Caderno Cultural do Jornal Povo de Fafe (28/01/2011)

sábado, 22 de janeiro de 2011

O utopismo e o ‘tanguismo’


Não há ninguém mais de esquerda do que eu!
Ao ver o rumo com que este país nos submeteu não posso reagir de ânimo leve. Paulo Portas foi o único que olhou para a precariedade em que se encontram os jovens e os seus empregos medíocres. O estado é o primeiro prevaricador, em questões de pagamento, mas se alguém não cumpre com os prazos na segurança social está tramado!
Porque não tenho pais ricos, porque não nasci em nenhum berço de ouro e fui educado numa família de trabalho, que se tem alguma coisa deve-se apenas ao seu esforço e não a qualquer oportunismo de circunstância, não podia ser mais um parasita da sociedade e deixar-me ficar sem ter a minha própria independência económica e realização profissional.
Nascido e crescido no período da ‘Geração das Gerações’, levei com todos os problemas que os senhores de Lisboa, nobres pensadores do ar condicionado, lá foram criando a este país. Depois de um curso terminado, conheci de perto uma realidade tão péssima como a dos recibos verdes. Não aquela em que permite acumulação de funções e uma delas faz os descontos para a segurança social, mas aquela em que o estado demora teimosamente a pagar aos seus trabalhadores, exige os recibos atempadamente e só paga quando lhe dá jeito.
Depois de conhecer esse período, jamais me motivaria uma nova aventura por iguais situações, principalmente ao ser confrontado com o facto de ter de pagar a segurança social até ao dia 15 de cada mês, mesmo que não tenha recebido o vencimento do mês em causa. Até aconteceu pagar, uma vez, no dia 16 e lá tive de pagar uma multa para não ficar a dever nada ao estado, que, afinal, até era o meu patronato porque era formador num dos seus Centros de Formação Profissional.
Era o meu caso. Mas sabia que não era isolado, porque se fosse não deixava de aparecer uma solução, mas era apenas um em milhares. E, neste momento de crise, liberto desta preocupação, não poderia deixar de mostrar o meu descontentamento a estas medidas austeras de um governo que se quer aproveitar destes trabalhadores, que não conseguem um contrato para um emprego, mas o certo é que precisam deles para ocupar os diversos cargos. Um governo que cria estágios profissionais e permite que se demitam funcionários para que os prevaricadores das entidades tenham gente a trabalhar apenas por 40% do salário.
Se estas são as medidas de esquerda, começo a acreditar que o Paulo Portas, quem se manifestou abertamente contra estas tomadas de posição, preocupa-se bem mais com as questões sociais e do povo do que estes senhores que se dizem de esquerda.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (21-01-2011)