sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

“Diacrítico” de João Rasteiro



«.a arte mais sublime de trespassar a morte é descansar num nevoeiro a arder de sangue. e mastigar a ferocidade das abismadas paisagens com a zoologia aberta do amor. na agonia da pura inocência. olhar o gume da lâmina prateada e amá-la exalando a sua boca atulhada em espaço lírico. no ventre suculento das algas. a renúncia do torpor é apenas a entrega incólume da candura e da vulva viva porque nos incutimos erectos. o fingimento que evoca a mulher sufocada nos ganchos quando o poeta faz de homem sábio. a magnólia cheirando a incesto nas palavras faustosas. cada golpe luminoso é a acutilante pujança das orquídeas negras do nosso próprio eco. a exígua morte.»
in Rasteiro, João, “Diacrítico” (VIII)
JOÃO RASTEIRO, poeta e ensaísta, nascido em Coimbra, apresenta o livro “Diacrítico” com a chancela da Editora Labirinto. A sessão realizar-se-á no dia 4 de Fevereiro (sexta-feira), pelas 18h30, na Casa da Cultura de Coimbra - Sala Sá de Miranda e será apresentada pela Professora Doutora Maria Irene Ramalho da Universidade de Coimbra. Leituras de poemas pelo poeta Jorge Fragoso e uma performance de dança por Cláudia Afonso, enriquecerão o evento.
“Diacrítico”, obra poética, apresenta-se como uma metamorfose da ordem natural das coisas, onde os sentimentos são invadidos por uma perturbação desconcertante no seu significado. Palavras atentas, escolhidas no mar, juntas na areia constroem esta nova natureza, que, na realidade, já não é nova, apenas esclarece uma ordem desordenada. Entre o poeta e a mulher volta o ‘fingimento’, semeado vezes sem conta, colhido por esta humanidade empobrecida, que caminha para a eterna morada.
Em “Diacrítico”, as palavras oscilam ‘entre a espada e a parede’. São palavras que não respiram ao respirar. São vozes que calam sem falar. São mensagens que passam sem um som se notar.
Nas palavras de Albano Martins, no prefácio à obra, «Empurrada por um vento que sopra do deserto, a linguagem carrega consigo algumas pétalas que vai deixando na página em branco. Portadoras dum sentido originário, genesíaco, as palavras abrem sulcos num terreno onde o significado se oferece pleno de potencialidades e sugestões, carimbando de decantada expressão o corpo do poema. Tudo, aqui, é alusão. Tudo é profecia, oráculo, metamorfose. Tudo é, também, delírio.» são as letras, assim, que se juntam nas palavras e ganham forma, conhecem um corpo e lhes permitem comunicar. Esse corpo, ladeado de sentidos contraditórios, ergue-se triunfante e aproxima o divino ao humano e o humano ao divido, como se a transformação fosse um sinal possível e a harmonia reinasse num reino sem trono. Tudo é fantasia. Tudo é ilusão. Tudo é metamorfose.
Biografia
João Rasteiro (Ameal - Coimbra, 1965), poeta e ensaísta, traduziu para o português vários poemas de Harold Alvarado Tenorio, Miro Villar e Juan Carlos Garcia Hoyuelos. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. Trabalha actualmente na “Casa da Escrita” – Câmara Municipal Coimbra. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores e membro dos Conselhos Editoriais das revistas Oficina de Poesia e Confraria do Vento (Brasil). Possui vários poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, Colômbia, Chile e Espanha e possui vários poemas traduzidos para o Espanhol, Italiano, Inglês, Francês e Finlandês. Obteve vários prémios, nomeadamente a “Segnalazione di Merito” do Concurso Internacional Publio Virgilio Marone, Castiglione de Sicilia, Itália, 2003, o 1º Prémio no Concurso de Poesia Cinco Povos Cinco Nações, 2004, o 1º prémio – na categoria de autores estrangeiros – do Premio Poesia, Prosa e Arti Figurative-Il Convívio (Verzella, Itália, 2004) e o Prémio Literário Manuel António Pina (Câmara da Guarda/Assírio & Alvim, 2010). Publicou os seguintes livros: A Respiração das Vértebras, 2001, No Centro do Arco, 2003, Os Cílios Maternos, 2005, O Búzio de Istambul, 2008, Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, 2009, Diacrítico, 2010 e A Divina Pestilência, Assírio & Alvim, 2011. Em 2005 integrou a antologia: “Cânticos da Fronteira/Cánticos de la Frontera (Trilce Ediciones – Salamanca). Em 2007 integrou a antologiaTransnatural”, um projecto multidisciplinar sobre o Jardim Botânico de Coimbra. Em 2008 integrou a antologia e exposição internacional de surrealismo O Reverso do Olhar. Em 2009 integrou a antologia: “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética”, organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva e que engloba poéticas de Portugal, Brasil, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Em 2009 integrou o livro de ensaios “O que é a poesia?”, organizado pelo brasileiro Edson Cruz. Em 2010 integrou a antologia Poesia do Mundo VI, resultante dos VI Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra organizados pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 2009, organizou para a revista ARQUITRAVE da Colômbia, uma antologia de poesia portuguesa, intitulada “A Poesia Portuguesa Hoje”. Mantém em permanente irrupção o sísmico fulgor do blogue: http://www.nocentrodoarco.blogspot.com/
Pedro Miguel Sousa, in Caderno Cultural do Jornal Povo de Fafe (28/01/2011)

sábado, 22 de janeiro de 2011

O utopismo e o ‘tanguismo’


Não há ninguém mais de esquerda do que eu!
Ao ver o rumo com que este país nos submeteu não posso reagir de ânimo leve. Paulo Portas foi o único que olhou para a precariedade em que se encontram os jovens e os seus empregos medíocres. O estado é o primeiro prevaricador, em questões de pagamento, mas se alguém não cumpre com os prazos na segurança social está tramado!
Porque não tenho pais ricos, porque não nasci em nenhum berço de ouro e fui educado numa família de trabalho, que se tem alguma coisa deve-se apenas ao seu esforço e não a qualquer oportunismo de circunstância, não podia ser mais um parasita da sociedade e deixar-me ficar sem ter a minha própria independência económica e realização profissional.
Nascido e crescido no período da ‘Geração das Gerações’, levei com todos os problemas que os senhores de Lisboa, nobres pensadores do ar condicionado, lá foram criando a este país. Depois de um curso terminado, conheci de perto uma realidade tão péssima como a dos recibos verdes. Não aquela em que permite acumulação de funções e uma delas faz os descontos para a segurança social, mas aquela em que o estado demora teimosamente a pagar aos seus trabalhadores, exige os recibos atempadamente e só paga quando lhe dá jeito.
Depois de conhecer esse período, jamais me motivaria uma nova aventura por iguais situações, principalmente ao ser confrontado com o facto de ter de pagar a segurança social até ao dia 15 de cada mês, mesmo que não tenha recebido o vencimento do mês em causa. Até aconteceu pagar, uma vez, no dia 16 e lá tive de pagar uma multa para não ficar a dever nada ao estado, que, afinal, até era o meu patronato porque era formador num dos seus Centros de Formação Profissional.
Era o meu caso. Mas sabia que não era isolado, porque se fosse não deixava de aparecer uma solução, mas era apenas um em milhares. E, neste momento de crise, liberto desta preocupação, não poderia deixar de mostrar o meu descontentamento a estas medidas austeras de um governo que se quer aproveitar destes trabalhadores, que não conseguem um contrato para um emprego, mas o certo é que precisam deles para ocupar os diversos cargos. Um governo que cria estágios profissionais e permite que se demitam funcionários para que os prevaricadores das entidades tenham gente a trabalhar apenas por 40% do salário.
Se estas são as medidas de esquerda, começo a acreditar que o Paulo Portas, quem se manifestou abertamente contra estas tomadas de posição, preocupa-se bem mais com as questões sociais e do povo do que estes senhores que se dizem de esquerda.
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (21-01-2011)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Encarnação deixou a Câmara, quantos mais o vão fazer antes do final do mandato?


O Presidente da Câmara de Coimbra, eleito nas últimas eleições autárquicas, deixou o cargo no final do ano 2010. Esta era uma atitude esperada, segundo vozes da oposição, mas mais no meio do mandato. Esta posição parece querer levantar várias questões pelo país, afinal espera-se que vários façam o mesmo.
Esta notícia, em Coimbra, levantou algumas vozes de protesto, afinal o candidato que se propôs a eleições deixa de ocupar o cargo e até Álvaro Maia Seco, candidato pelo PS, considerou que esta candidatura tinha sido um engano ao povo de Coimbra. Apesar de tudo, não pude deixar de concordar com estas palavras, ou seja, um candidato deve sê-lo até ao fim, porque o povo vota nele e não em qualquer outro para que oriente os destinos do concelho. Mas, de repente, lembrei-me do que aconteceu em Regadas, logo no dia de tomada de posse, uma candidata eleita para a junta deixa o cargo para o irmão da presidente.
Avaliando as duas situações, em Regadas foi muito mais escandaloso. Carlos Encarnação esteve pelo menos um ano à frente dos destinos de Coimbra, já em Regadas a passagem foi imediata. O que diria Álvaro Maia Seco, este candidato pelo PS, se soubesse disto? Provavelmente até mudaria de opinião e consideraria que Encarnação até aguentou muito…
De facto, a política tem destas coisas. Uns consideram que são alterações à vida, outros sabem que é uma forma de ganhar, mas todos sabemos que a lei o permite… por isso, só se pode sentir enganado quem vota nestas pessoas!
Mas, o mais importante não é quem está ou deixa de estar, afinal se lá estão é porque alguém os elegeu ou a lei o permite, resta é saber se vão cumprir os deveres para com as populações que representam ou as promessas que fizeram. No entanto, com estas manobras de diversão, uma coisa todos também sabemos: há pessoas que ocupam lugares na política para o qual não foram eleitos. Mas também há aqueles que concorrem a eleições e não ganham, depois vão noutros cargos e não conseguem, porque alguém, dentro do próprio aparelho, arranja forma de ficar outro e não aquele… enfim, depois saltam de partido em partido, e de partido a sem partido… mas nunca conseguem ser eleitos.
Parece-nos, neste momento, que a fome da fama é cada vez maior, mas como diz o velho ditado: «quanto mais se sobe, maior é o tombo». Há também quem diga que ao chegar ao topo só há uma hipótese: começar a descer! Será que no meio disto tudo restará algum interesse em trabalhar em prol das comunidades? Ou será que as obras, constantemente adiadas, vão ficar para o último ano do mandato para mostrar trabalho e determinação?
Seja como for, quando se promete e não cumpre, quando se agenda várias vezes as mesmas obras e estas não acontecem, quando são todos da mesma cor e as obras continuam adiadas… só há mesmo uma palavra: FALHANÇO!
Mas, como mandam as regras da boa cidadania e da democracia, devemos todos dar uma oportunidade aos eleitos do povo na sua maioria, porque a cidadania é um direito e um dever de todos. Resta saber se os eleitos têm e governam com as suas ideias!?!?
Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (14-01-2011)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ano Novo, Vidas Preocupadas e Fafe sem visão


O novo ano iniciou e com ele todas as preocupações inerentes a um estado caótico do país. O marasmo apoderou-se do povo português e lá vai o tempo em que éramos detentores de meio mundo. Já não cantam os Lusíadas, nem nos serve a Mensagem de Pessoa, porque o sonho foi perturbado pelos tão afamados defensores da pátria. Pátria que chamam sua por direito e o é por nossa obrigação, querem eles, afinal apregoam que nos livraram das garras salazaristas, mas não se lembram que também são eles que nos tiram o pão.
Passeios em carros topo de gama, que não servem mais que uma legislatura, às vezes duas se não surgir qualquer demissão. Mas sentar-se no mesmo banco do anterior está sempre fora de questão. Em altos tamancos, lá tiram de quando em vez a gravata para parecerem ao povo como povo, embora não o são. Estes são os senhores, os ilustres fazedores do tal bem à nação.
A nação, por si só, já nada é mais do que uma ilusão de fronteiras abandonadas. Valha-nos isso, ao menos, para entrar nas terras dos nossos hermanos que vendem o combustível a preços mais humanos. Se Portugal nos persegue a memória, resta-nos agradecer à história de um Camões que nos exaltou e um Pessoa que sonhou: ‘Agora é a hora’ – exclamou. Por isso, resta-nos acordar, para a memória avivar, e depressa declinar todas as atrocidades até então. Demitam-se os ‘mal fazedores’, derrubem-se as tiranias, pois chegou a hora de um novo império ser construído em nome da sabedoria.
Terra de todos os feitios e mar de enorme dimensão, por que esperamos se sabemos que outrora este foi o caminho para impérios emergir?
Se o país está deste modo e Fafe pertence ao país, logo Fafe não me parece que vá encontrar um registo muito diferente, nestas palavras toscas, que encontrarão logo múltiplas observações, de outros sábios da razão.
Contudo, devíamos observar com maior atenção o que vai acontecendo (ou não) neste nosso concelho e perguntar se é desta forma que fazemos com que a nossa comunidade avance e a nossa indústria, comércio, turismo… possa sonhar com um futuro próspero. Por exemplo, na terça-feira passada, em Guimarães, foram apresentados os ‘Fins-de-semana Gastronómicos’, organizados pela Região de Turismo do Norte de Portugal, onde as autarquias presentes puderam apresentar os seus pratos e convidaram a que os participantes fossem expor aos seus respectivos concelhos, como é já comum, Fafe nem se deu ao trabalho de aparecer.
São estes, os erros crassos de quem nos governa. E voltamos sempre ao mesmo problema, Fafe é mesmo ‘A Sala de Visitas do Minho’, porque no Minho passa-se mais tempo na cozinha do que na sala, por isso, Fafe só serve mesmo para que os turistas façam ‘uma passagem’ e de preferência que não estejam muito tempo para não sujar as carpetes, porque depois dá mais trabalho ao limpar na Páscoa!
Será que não há visão capaz de traçar planos de intervenção que possam promover o concelho de Fafe e projectá-lo? Por muito que possam querer passar a mensagem de beleza, o certo é que Fafe não tem nada que cative as pessoas para parar em Fafe. Dizem que temos boa vitela, mas como já alguém questionou: onde se pode comer? Em que restaurante?
Talvez esta e outras questões pudessem ser apresentadas durante os ‘Fins-de-semana Gastronómicos’. Talvez se se aceitasse definitivamente que é preciso pegar na nossa cultura (património, tradições, gastronomia…) e contratar bons promotores, daqueles que reconhecem a necessidade de estar presentes, por exemplo, na promoção de turismo na FIL – Feira Internacional de Lisboa, que acontece todos os anos e Fafe nunca lá vai, e em criar mecanismos para a qualificação de casas de repasto com qualidade, talvez Fafe começasse a sair da sua ruralidade bacoca que até pode dar jeito, mas em nada nos engrandece e muito menos trará melhorias às futuras gerações.

Pedro Miguel Sousa, in Jornal Povo de Fafe (07-01-2011)